TAGOR - A REDENÇÃO (30º Episódio)

Tudo de antes, estava de voltava, agora, com muito mais ênfase. O povo na Praça Champs Élysées, em Paris. A multidão, naquela manhã de sábado, ia assistir a mais uma execução. O senhor Tagor Zabulon Fashall, dali a alguns instantes morto seria pela guilhotina. Os dias que permanecera no cárcere deixou-o muito magro, o rosto ossudo. O cabelo e a barba haviam crescido. Usava uma camisola, chamada de túnica dos condenados. Na cadeia da corte o ministro das execuções de justiça, determinava ao carcereiro que na hora de morrer o réu, deveria estar usando apenas aquela vestimenta, era peça única, alva, de linho. Trajos que seus parentes poderiam ficar com ele, bem como os objetos pessoais do morto, depois de aplicada a pena.  Lívido, de pés descalços, ladeado por dois verdugos com carapuças na cabeça, seguia. Devagar subia os degraus do patíbulo. Iria pagar pelos crimes que cometera, devagar subia. Mas que crime hediondo teria cometido contra a corte francesa pra merecer a guilhotina?

Os meninos das bicicletas, Marcos, João e Tiago na Praça da Bandeira passeavam. Subitamente pararam pra ver onde o amigo Tagor naquele momento se encontrava. O portal do tempo, novamente se abriu, e os mostrou. A claraboia da torre da Capela de Nossa Senhora Assunção foi crescendo, crescendo, até virar um imenso portal. Como a tela panorâmica do cine Alvorada. E puderam contemplar, debaixo de um céu de chumbo, entristecido, desenhado exclusivamente pra aquele momento, preludiando o que estava pra acontecer. Os pombos voavam, tanto aqui como lá, de um sobrado pro outro. Antonieta, de lá do interior da igreja de Santa Étienne-du-Mont, de joelhos, com um véu sobre a cabeça, rezava, sob a imagem de Santa Genoveva.

No hemisfério de cima era tempo de início da primavera. Alguns filhos desse mundo receberiam por batismo o nome de April, em referência ao mês que abria o bom tempo da primavera. E poder dar adeus ao rigor do frio, da clausura de dentro das casas, da lareira como sendo o ponto central de tudo. Com a chegada da estação das flores, tudo mudaria, os campos ficavam mais vistosos, as cores se tornavam abruptamente realçadas. Como a estação da alegria estava implantada, nada no mundo podia lembrar tristeza, em tal época. Parecia que o tempo passava a andar mais lentamente, como que querendo aproveitar melhor cada instante daqueles momentos. É muito provável que Deus, tivesse criado as estações do ano, para que Abel pudesse dividir o tempo em: tempo de pastoreio, tempo do aprisco, tempo da apartação,  ou desmame, e tempo da cobertura das ovelhas pelos cabritos. Caim por sua vez, saberia em que época devia cultivar: frutas, legumes, flores, hortaliças. Nessa época Deus andava no mundo, e admirava-se de sua obra “Gênesis 3:7,8”, e portanto está dito: “e viu que tudo que tinha feito era bom “Gênesis 1:10”

O Primeiro crime de Tagor, somente ele sabia que havia cometido. Havia roubado um álbum de figurinhas do seu amigo Ricardo que morava na rua do mercado. Muitas foram as vezes que fora ele e os amigo pra casa de Ricarte e o irmão, pra brincarem no quintal. Lembrava que havia uma cisterna cheia d’água da chuva, que os meninos mergulhavam pra tomar banho. Era muito profunda só entrava quem sabia nadar. E assim passavam praticamente o dia inteiro. Os pais dos amigos iam pro sítio Batatal. Então aproveitavam, por ficarem em casa sozinhos, faziam a festa. Os amigos vinham fazer companhia, e tomavam banho na cisterna. E depois que abusavam de tanto banho, brincavam de muitas outras coisas. De jogar dama, ludo e baralho. De bafo-bafo com figurinhas. E juntavam moedas, e compravam refrigerantes, pães e salame e comiam com avidez porque as atividades físicas dava muito fome. Tagor aproveitando a distração deles, apanhou um álbum de colecionar, que tinha futebol como tema, e tinha uma capa verde, e as figurinhas eram como medalhas de latão, redondas, autocolantes. Derick o gato viu tudo, foi a única testemunha do primeiro crime de Tagor.

Leviatã odiava o Criador e toda sua obra. Jamais aceitava a perfeição, onde houvesse paz tentaria instalar o caos. E desde então, onde pudesse desmanchar tudo de bom que Ele havia feito, tentaria. E Deus disse a Adão e Eva, depois de expulsá-los do paraíso, que dali por diante iriam suar suor dos seus rostos para adquirirem seu sustento, e os expulsou do jardim do Éden. Mas era preciso que se entendesse que isso, não significava necessariamente que haveria mais castigo pra uma região, em detrimento de primícias pra outras partes do mundo. Os meninos das bicicletas, muito queriam entender porque na região que moravam passavam anos a fio de muita seca. As estiagens prolongadas fazia seus pais perderem rebanhos, plantações. Não dava pra entender porque muitos dos aldeões que possuíam glebas de terras e cultivavam e criavam, assim com Caim e Abel, e conformavam-se a verem o gado morrendo sem nada puder fazer. E suas montanhas a ficarem peladas, destituídas dos vegetais que tão belamente ornavam outrora. Agora praticamente desapareceram, escassearam e tornara tudo tão árido e inóspito. Tempo dos sertões entristecidos chorarem sua dor.

A medida que subia o patíbulo, e aproximava-se do terrível instrumento de causar morte, e morte artificial, Tagor, via passar na sua frente, como num filme, momento a momento da sua vida. A infância junto a seus outros seis irmãos, os ensinamentos recebidos de seus pais. O respeito que deviam, ele e os irmãos, devotar aos mais velhos, a sabedoria que deles poderia adquirir. As reverencias religiosas, recitar três vezes por dia versículos de salmos bíblicos, ao cair da tarde a recitação do santo terço, pedir a benção aos pais, tios e avós pelo menos três vezes por dia, caso estivesse em suas presenças, por ocasião de acordar ao levantar-se, ao fazer a refeição principal do almoço, e ao recolher-se para dormir. Se pudesse escolher, a forma como queria ser executado, talvez não soubesse direito, se ia preferir morrer como o amigo Joaquim, o alferes lá de Minas, que morrera dependurado numa corda. E ainda por cima o esquartejamento. Dizem que até mesmo o terreno da sua casa teria sido salgado, Deus, quanto ódio contra um homem e seu ideal de liberdade. O Cristo Jesus, este outro amigo, também sofreu martírio, só que injustamente sofrera.

Tagor lembrava agora, do seu segundo crime, que teria cometido, matara Derick o gato de seu melhor amigo. Depois daquele dia em diante, botou na cabeça que detestava gatos. Isso porque o olhar do bichano, ao vê-lo cometer o primeiro crime foi inquisidor, até hoje ao lembrar incomodava-se. Jamais esqueceria o olhar do gato sobre ele. Penetrando seu olhar, como se soubesse que o que ele estava fazendo era errado.  Mas o que realmente o levaria a matar Derick, fora porque muitos anos depois o bichano, que nunca se apartaria do seu convívio, foi morar na rua de uma outra vida sua, já na idade adulta. Ali se reconheceram e passaram a viver. E eis que Derick acabou comendo um seu Hamster, um roedor que comprara na feira do rato, pra ter um amigo e companheiro, e o mantinha preso numa gaiola. Alimentava-o, conversava com ele e devotava-lhe cuidados diariamente. O amigo vizinho dono de Derick, jamais ficara sabendo que tinha sido ele, que colocara veneno pro gato morrer. Esse era um dos crimes que, mesmo não sendo do conhecimento da justiça francesa, estava ele levando pra guilhotina.

O terceiro crime de Tagor, dizia razão a coroa francesa. O que parecia sim, ser o menos grave crime. Depois de ter sido absolvido da acusação injusta de ter matado mestre Morion Lucindo, o ferreiro, que acabara ressuscitando. Tagor agora se via sob a acusação de lesar a coroa francesa. Era acusado de ser contrabandista, desviando ouro das reservas reais de França. Isso fazia ao apoiar as escavações e intervenções dos aliens em terras francesas. Estariam os extraterrestres levando pro espaço, mais precisamente pro planeta Urano, o metal precioso para a produção de Megano o vital alimento e combustível dos aliens.

Os meninos das bicicletas, se iniciaram numa discussão sobre o que poderiam fazer pra libertar Tagor. E conseguir tirá-lo daquela situação periclitante que se encontrava. E se havia real possibilidade disso. Certeza tinham que obstáculos existiam, primeiro teriam que entrar no túnel do tempo, e se conseguissem, pois fácil não seria, teriam que enfrentar a corte com seus batalhões de soldados rigorosamente armados, além de uma multidão ávida por ver mais um condenado executado. Não sabiam se podiam contar com a ajuda dos alienígenas A verdade é que eles sempre precisaram de Tagor, quem sabe Derick, o gato seu amigo pudesse ajuda-lo. Rafael Bertrand, de longe apenas assistia, motivo não tinha para envolver-se, aliás Tagor pra ele não passava de um desconhecido, um pobre desafortunado. Mestre Lucindo, nem este podia evitar o holocausto, infelizmente nem estava lá, seu paradeiro, naquele momento, era outra galáxia muito distante da terra. Antonieta, não tendo outra coisa a fazer rezava.

Um frade capuchinho foi trazido pelos soldados da guarda francesa, conduzido até a parte superior do patíbulo, para encomendar a alma do condenado. O capuz da sua veste de franciscano estava levantado de modo que ninguém conseguia ver seu rosto. Ao chegar de frente a Tagor ele retirou o capuz. E todos puderam ver, o próprio Tagor de frente a ele mesmo. Só que mais novo, sem barba, nem cabelo grande. E apenas disse: “-Fique tranquilo, estou aqui para te salvar.”

Fabio Campos, 22 de Abril de 2017.

VIA APIA (29º Episódio de T.Fashall)


Naquele tempo. Sempre com essas palavras o sacerdote iniciava a leitura dos santos evangelhos. A dizer, aos fiéis que, entre tantas coisas, Jesus vivera sua Via Sacra, e em quinze Estações, é seu calvário narrado. Tagor também vivera sua via sacrificada. Só que a Via Apia. Em trinta cegos episódios estarão narrados. A grande batalha estava pra acontecer. Os brasões ricamente belos, a cima dos elmos dos soldados romanos. Seguia a linha de frente do pelotão, em ordem de batalha, Guarnecidos por pontiagudas flechas, lanças e escudos. Dois grandes exércitos em breve se confrontariam, Roma e Armagedon. A menina que tinha medo de escuro admirava-se de ver o mundo virar um grande conflito daquele jeito. Sobre a mesa do quartel general a massa de bravos guerreiros não passava de bonecos que o comandante movimentava com um pequeno rodo de madeira, ia montando sua estratégia sobre o mapa. 

As serras iam andando pra onde as nuvens as levassem. O homem encostado na pia de lavar louça, na cozinha, não passava de mais um retrato do cotidiano. Um pintor anônimo, quem sabe um dia o retratasse, e mesclaria cores quentes e frias na sua paleta. E ia ficar com cara de coisa vinda dos trópicos. Arte barata, vendida em feira de artesanato. Diferente de outros dias lá atrás. De tempos em que retratos eram feitos somente em dias solenes. Quando todos haveriam de ter tomado banho e penteado os cabelos exclusivamente pra se fazer o flagrante. O avô apararia o bigode, a avó colocaria perfume e pó de arroz no rosto. Um colar, herança de família, guardado especialmente para aquele momento usaria.

Pietro desceu do seu Fiat Uno, a plena Praça de Maio. Mulheres com seus lenços amarrados na cabeça ocupavam todos os bancos de mármore que adornavam a fonte d’água. Elas queriam ver seus jesus que estavam presos, talvez mortos, muitos desaparecidos. Luiz veio ao seu encontro, se cumprimentaram com efusivo abraço, e beijos na face como todo bom italiano gosta de se cumprimentar. Os pombos sem o menor receio vinham catar migalhas que caiam dos lanches dos meninos. O céu de Roma tinha duas caras bem definidas, no centro lembrava algo pintado por Michelângelo, como na abóbada da capela Cistina. E nos flancos parecia com o céu de Leonardo Da Vinci em Monalisa. Por trás de tanta beleza havia infelizmente a tragédia, não de duas apenas, mas de muitas guerras.
Manoela morava numa casa na vila de San Joseph, devido à separação do marido, foi morar na capital italiana. Alugou um apartamento bem próximo a Via Apia. Para o transporte de seus pertences acertou com Seu Antony da padaria. O caminhão de carregar lenha disponível estaria somente a tardinha. Tinha pressa, mesmo assim aceitou. Da única janela do apartamento, além de muros e construções, poucas coisas naturais conseguia ver. Um pé de marmeleiro, lá longe no quintal de uma casa do quarteirão da Rua do Sol. Não tinha certeza se a rua assim se chamava, porém, dali por diante, assim a denominaria. Também uma amendoeira quase atropelada pelos carros que incessantemente circulavam pela avenida, com seus faróis acesos a plena luz do dia. A negra pedraria do calçamento, com a umidade da névoa de inverno, refletiria ao cair da tarde sua luz tênue.

Os dias de jejum se intensificaram.  A menina que tinha medo de estouro de balões de aniversário, sentada a mesa, desenhava. E queria saber: por que não podia comer carne naquele dia? Os adultos de seu convívio, tinham opiniões vagas. Teve um que falou: “É por que estamos vivendo um tempo que precisamos renunciar a algo de que gostamos”. Um outro disse: "porque somos todos culpados, de ferir a carne de Jesus Cristo". Desconversaram. Dos rabiscos fortes da menina surgiam fadas que conseguiam pegar luas com uma facilidade impressionante. Também duendes, e meninos encrenqueiros que saltavam faceiros pra cima do branco sulfite. Saltavam e já iam fazendo o que mais gostavam, encrencar. Botavam apelidos nos outros, esfregavam seus pirulitos gosmentos no caderno dos colegas, empurravam restos de lápis pra banca vizinha. A árvore da felicidade também estava lá. E somente ela, podia realizar os sonhos todos das meninas e meninos. E vinham com seus livros, cheios de surpresas e uma fada madrinha com seu vestido de princesa, rodeada de garças, apesar de não ficarem tão belas, mas que dava pra entender perfeitamente o que eram.

O gari começava seu trabalho sempre às quatro da manhã. Já era cinco quando achou na calçada, cheia de sol e de orvalho, o desenho da menina. Ficou sem saber o que fazer com aquele reinado inteiro, só uma certeza tinha: tudo aquilo não caberia na sua carroça de lixo. Um avestruz completamente desorientado foi parar na lição, só porque começava com a letra “a”. A abelha por sua vez veio ver a amiga do desenho, e a menina pensou que a mesma tivesse reconhecendo a colega, na verdade viera atraída pelo açúcar do seu copo de refrigerante.

A procissão passou pela rua. Jesus caiu pela terceira vez, a rua ficou às escuras. As velas das lanternas continuaram acesas. As matracas labutavam serviço de ferro e madeira. O mundo quase indiferente estávamos na terceira queda que Jesus deu. O filho de dona Cândida pulou o muro da escola pra gazear aulas. Isso foi lá trás, ainda quando Jesus caíra pela segunda vez. A mãe não imaginava que ele estivesse se envolvendo com coisa perigosa. Jesus se encontrando com sua mãe. O bedel avisou ao administrador, que avisou a oficiala, que avisou a conselheira para que tomasse as devidas providências. Isso foi bem antes. E Jesus nem tinha ainda sido condenado. Jesus passou a noite na cadeia.  Os anjos, eles fizeram tudo tudo que podiam, o menino fora tentado, e tentação, sempre fora algo muito atraente. O Simeão que ajudou a carregar o madeiro pesado, de bicicleta vinha pela rua, vinha com uma marmita no bagajeiro, voltava do trabalho. Então o soldado o obrigou. O irmão do reverendíssimo disse que jamais havia provado ervas aromáticas, que causavam alucinações. Verônica a irmã dele tentou passar-lhe um lenço pelos gradis mais foi contida, desconfiaram que ela consigo trouxesse drogas. Verônica mesmo assim teve tempo de enxugar-lhe o rosto. O menino seu sobrinho infelizmente não podia dizer o mesmo. As mulheres lastimosas, o dia inteiro, ficavam sentadas nos degraus, esperando a hora da visita.  Ele era acusado de ter levado pra dentro do internato, pro colegas provarem. Isso era muito grave.

A xícara de café com seu poder invisível, belamente indizível, atraiu a moça. Moça que não sabia da missa um terço, mas que tinha lábios perfeitos. As verdades às vezes se escondiam por trás de meias verdades. E isso queimava, quando não se sabia esperar a hora de degustar. Pois pra tudo tem hora. Hora pra avançar e recuar.  A casa era muito velha, e as paredes sujas tinham marcas de tiros. No meio do terreiro ficaram os apetrechos de colocar na parelha de bois de arado, bois que agora estavam mortos. Por que se demoravam, em que confiavam? O que esperavam? Seu Maximiliano ficou quase um século se perguntando. Melhor vender o gado a vê-lo morrer. E o barbeiro disse: aquele velho é um mentiroso, onde já se viu dizer, com tanto vigor que se tem mais de século de vida. Cento e quatro anos foi o que disse que tinha. Com aquela lucidez e potência. Não seja por isso, dona Deolinda mesmo, não acreditava que tivesse na cacunda, noventa e um. E perguntou se alguém sabia alguma coisa sobre Maria Auxiliadora, uma que ia sempre com ela pra igreja. Se viva ainda estivesse com noventa e cinco estaria, pois era quatro anos mais velha que ela. O filho Tagor a havia encontrado na igreja, esperava a hora da confissão, Esqueceu, porem de dizer à mãe que a havia encontrado.

Marcos os viu, quase debaixo do meio dia, meninos pintados com carinhas de coelhos. Estavam voltando da escola. Isso o fez lembrar, da sua infância, sofrida de inda agora. A mãe costurava pra ganhar uns trocados. E ele era quem ia levar as encomendas. Um dia levou umas roupas na casa de comadre Iolanda. Acabou ganhando um vintém com o qual comprou um sorvete. Tomou tudo na rua, pra não chegar a casa com ele. A mãe acabaria descobrindo pela lambuzeira na roupa. Semana Santa os costumes de sair as procissões, de Nosso Senhor dos Passos indo ao encontro de Nossa Senhora da Soledade. Os cânticos chorosos, as matracas, as vestes lilás do pároco e acólitos. O turíbulo, o cheiro de incenso. As meninas, elas sabiam de uma história de procurar aleluia, dentro da igreja, as escuras. A fogueira ardendo lá fora, abandonada. A consagração dos santos óleos, a queima das cinzas da quarta-feira do ano anterior, a que dera início a quaresma.

A menina que tinha medo de escuro queria saber: por que na quaresma havia mais moscas que em outras épocas do ano? Inácia, a preta velha, com seu rosto luzidio seus lábios enormes, a carapinha presa debaixo do lenço, o ventre avolumado. Olhando de soslaio lá da cozinha disse que sabia o porquê. E de lá mesmo, da beira do fogo, onde cuidava de vigiar o leite, disse: “É por conta de nossos pecados. Está no velho Testamento, na Bíblia. Pela dureza do coração do faraó vieram às sete pragas sob o Egito. Entre nós, agora ocorre o mesmo, depois do carnaval sofremos alguns castigos, mandado por Deus. Regiões como a nossa fica muito tempo sem chover. Vem pragas de gafanhoto, na roça de feijão, de lagartas na roça de milho. Os barreiros e barragens de água secam, e moscas invadem as casas. Isabela tinha outra opinião. “As moscas invadem as casas por conta do seu ciclo de vida, elas precisam se reproduzir. Então põem seus ovos nos monturos, e quando vem as trovoadas esses ovos ficam expostos ao sol, e eclodem provocando uma superpopulação delas, portanto, nada a ver com semana Santa. Desconversaram.”

As sombrinhas naqueles momentos de fé, substituídas eram por sóbrios guarda-chuvas. As cores ou qualquer coisa que denotasse alegria sutilmente se escondiam, era quaresma. Crianças vestidas de frades se pareciam franciscaninhos, miniaturizados. A cabeça raspada, a auréola de cabelos, chinelos de monge nos pés. As lanternas acesas. A procissão do fogaréu. Os passos apressados nas ladeiras, a cantoria cansada. Esforços humanos, superação. A menina que tinha medo de escuro, também tinha medo de fogos de artíficios, na procissão ia. Agarrava com força o avô, choramingava. Não sabia a letra do canto por inteiro, e cantava só o refrão: “Com a Virgem dolorosa, nossa mãe tão piedosa/ Perdoai-me meu Jesus/ Perdoai-me meu Jesus.”

A rigidez das tradições, a discrepância de uma mesa farta nos dias grandes. Desde a quarta-feira santa, chamada também de quarta-feira maior. O tríduo pascal, de quinta-feira ao sábado de aleluia. Os chamados dias grandes. Jesus tinha passado quarenta dias orando, e jejuando. No entanto, poucos, quase ninguém, queria ficar uma semana sem satisfazer os caprichos do corpo. Sem querer abrir mão dos vícios, pelos quais os corpos pediam, apenas por uns poucos dias. Abster-se de comer carne não era suficiente. Era preciso renunciar a muito mais coisas do mundo. A ceia pascal essa sim, podia vir regada a vinho e peixes, guloseimas de chocolate. A menina que tinha medo de gatos, queria saber o que tinha a ver o coelho com a páscoa? Na dúvida a mãe disse que perguntasse a professora, na escola. Ao retornar disse que a tia tinha dito, que era porque coelhos eram muito férteis. E lembravam páscoa que era vida nova. Mas ficou no mesmo porque ninguém soube lhe explicar com clareza o que era ‘férteis’. Desconversaram.


Fabio Campos, 15 de Abril de 2017.

O CONDE DE MONTEPELLIER (28º Episódio de T.F.)


O rio, dava mais do que pedia explicação. O trem de lama, dele e nele, se havia formado, por assim dizer. As coisas todas que puderam se salvar, se salvaram. Os que não conseguiram, desceram ao inferno. Um pé de umburana e outro de mulungu, a plantar bananeira afogavam-se na correnteza. Seus braços de bruxa desesperadamente tentavam agarrar-se aos tufos de catingueira e capim seco, das ribanceiras. As torrentes arremedando um conhecido escultor alemão, de suas mãos fazia nascer tudo o quanto era arte, reinventada do que a natureza mesma já havia feito. As nuvens, guardadas especialmente para aquela ocasião, surgiam nos céus rabiscando lágrimas apressadas. Desafiando a lei da física a subirem pro topo das terras das montanhas. Acabavam assim desafiando a lógica bíblica do Criador que no início haviam-nas separado. Os elementos água e terra agora se fundiam. O descortinar de cortina de chumbo, derretendo desabando em estrondos, como pedras gigantescas se partindo. Só podendo ser o calor das fornalhas sempre que Deus estava fabricando chuva. Despencando do céu, caindo, desabando, descendo ao chão. Causando gasto tão forte de energia que os homens todos, se sentiam oprimidos, sufocados, e chegavam a desfalecer.

Émile Passion, a filha do mestre Lucindo, em Paris, soubera dos preparativos do casamento de Antonieta. Sentiu necessidade de revê-la, reencontrar depois de tempos que não se viam. A distância que as separava Étole Chavalier da “Cidade luz” era de uns trinta estádios. Lembrava agora, de quando era pequena, e Antonieta a levava pra escola, de bicicleta a levava. Todos os dias, ter que acordar cedo, tomar banho, o que café da manhã. E seguiam as duas, pelas ruas de Étole Chavalier. Graciosas, menina e moça em suas roupas vaporosas, em tons pastéis, elegância e ingenuidade com relação ao por vir. Émile teve que ir pra Paris, ingressaria na escola São Denis de Artes e Ciências. Tanto tempo passara, já estava no quarto ano do curso de Canto. Estudava música e artes. O estilo defendido pelos seus mestres era o Galês-Romano. Altamente avançado pra época. Tiveram, ela, colegas e professores, anos de muitas dificuldades. De defender ou abrir mão de tendências, tudo para não entrar em confronto com os ideais da monarquia e do clero. E nos anos de rigorosos invernos o grande inimigo eram as cheias dos rios. Enchentes do Sena afetava a vida de toda a população parisiense da margem esquerda principalmente. A aldeia do bairro Administrativo de Bercy sofria tanto com os saqueadores aproveitadores das variações climáticas. Numa das enxurradas uma embarcação, uma fragata foi arrastada pelas águas. Arrebentou os fundos, de algumas casas e foi parar dentro do teatro de Saint Louis. Um mar de lama e destroços invadiu ruas. Sensibilizada diante da tragédia a rainha Vitória doou recursos da coroa, para recuperar parte das casas noturnas do subúrbio de Paris. A fragata, no entanto, jamais foi retirada, passou por algumas adaptações e passou a fazer parte do palco, duma das maiores casa de espetáculos de então.

Rafael Bertrand, sobrinho de mestre Lucindo, também morava em Paris. Estudava filosofia na mais famosa instituição de ensino superior da Europa. A Universidade de Paris, que ficava na nobre área de ‘Rive Gouche”, um imenso maciço amplamente urbanizado. De rica arquitetura, o bairro surgiu debaixo de alamedas bem cuidadas, de palácios e mansões suntuosas. Depois do trágico episódio de Étole Chavalier, em que seu tio, o ferreiro Morion Lucindo misteriosamente aparecera morto, o moço sumiu da vila de aldeões. Em Paris, a grande chance de sua vida viria surgir na sua frente. Fez por onde conhecer o conde de Montepellier para quem seu tio, no passado  prestara relevantes serviços. O conde deu-lhe guarida. Acomodou-o nos seus palácios, tudo fez pelo rapaz. Até mesmo aulas particulares de esgrimas, bancou os seus estudos superiores. De como Rafael se aproximou do conde, é uma história que merece um capítulo à parte, foi assim: Rafael, no meio dos documentos do seu tio Lucindo, encontrou uma carta do conde, de posse da missiva, foi fácil localizar a residência do nobre. Desde então, Rafael passou a vigiar secretamente cada passo dele. E numa das vezes que o conde foi ao teatro com a esposa, deu uma gorjeta a um menino de rua pra lançar um punhado de pó de pimenta seca nas ventas dos cavalos da carruagem. Os cavalos saíram em disparada, o cocheiro não conseguia controlar. O conde havia descido. A condessa, porém, permanecia lá dentro. Eis que heroicamente surge no seu cavalo Rafael, que consegue refrear a carruagem, quase no final da rua. Agradecido pelo feito do rapaz, o conde se vê na obrigação de recompensá-lo. faz questão de conhecê-lo, e de ajudar, o pobre estudante de filosofia. E ele que antes dividia um quarto com outros quatro jovens num albergue fétido e imundo da “Rue de la Bastille” subúrbio de Saint-Antoine, próximo a prisão de Bastilha, agora passa a habitar o castelo do conde de Montepellier, e desde então teve acesso, e amizade da corte parisiense.

O Paranthropus o monstro sagrado dos Ushaias despertara. Diziam os ancestrais da tribo Munbassa da aldeia de Arusha, ao sul do Monte Kilimanjaro, a Tanzania, na África oriental, era um dos mais antigos sítios arqueológicos da humanidade. Considerada por estudiosos como “O Berço da Humanidade”. A mais de dois mil anos ele surgiu pela primeira vez. E tinha estes aspectos, dois metros e meio de altura, mandíbula proeminente, peludo dos pés a cabeça, apesar de no corpo parecer com um orangotango, as feições era de um homídeo. Com sua força descomunal arrancava uma árvore de cinco metros de altura com um simples puxão de uma das mãos. Mãos de cinco dedos como as nossas, diferindo apenas no tamanho. Mãos capazes de destruir um carro de passeio, com apenas um murro. Isso realmente aconteceu. Tagor estava lá. Era primeiro de abril de 1979. O Paranthropus monstro, que apareceu na aldeia, era o bisavô daquele com quem Tagor inda agora conversava na taberna. Enfurecido a fera dizimou quase toda  população de aldeões. Pegava os nativos e partia ao meio, atirando os pedaços pros lados, pro alto, por não ser um animal carnívoro lançava longe. O massacre da Paranthropus ficou conhecida na aldeia como o Dia de Baal. Tagor integrava um grupo de cientistas que fazia pesquisas arqueológicas, e que também foi atacado. Os guardiões da caravana com seus rifles davam tiros no monstro mas parecia se quer o atingiam. De um só golpe destruiu o carro, destruiu a barraca, e atirou longe o rifle. E o pobre nativo acompanhante da expedição teve a espinha dorsal dilacerada. Ia matando e atirando sobre uma árvore, nativos e estrangeiros. E os corpos iam ficando pendurados. Aquele lugar seria amaldiçoado pelos anciãos. O local jamais voltaria a ser povoado. De ano em ano iam lá, fazer reverencias aos que morreram no massacre de Paranthropus. A árvore dos corpos, ficaria conhecida, até hoje, como a árvore dos condenados.

O direito de estar junto a nobreza de Paris, deu a Rafael prestígio e poder. Conheceu importantes mestres de Filosofia e Teologia. Passou a interessar-se pela Alquimia. Frequentava todas as escolas superiores, Liceus e Academias localizadas no luxuoso bairro de “Rive Gauche”. Tinham-no, como enteado do conde. Livre acesso lhe era concedido para treinamento com os gerentes e administradores de instituições militares e eclesiásticas. Passou a ser assíduo frequentador da Biblioteca Nacional de Paris. Devorava todos os livros que falavam de Alquimia, chinesa e greco-romana. Leu os fragmentos de Neipian e os “Capítulos Internos” de Baopozi. Rafael, na verdade, queria chegar ao Elixir da Longa Vida. Nunca esquecera o episódio do tio Lucindo. Descobrir o mistério de como conseguira ressurgir do mundo dos mortos. Tinha esperança de encontrar a fonte da juventude. Só havia uma pessoa capaz de ajudá-lo nesse empreendimento. Alguém que ele nem conhecia ainda, mas não tardaria, em breve iria conhecer.

Chouchoulina a bailarina do cabaré de Paris, precisava ainda, descobrir o que a lenda da Ponte de Montilieu tinha a ver com o suposto tesouro deixado por seu pai. Onde estaria o segredo pra desvendar o mistério? Tagor Fashall tinha parte da resposta. Mas, como compartilharem de informações se estas criaturas se encontravam em lugares distintamente diferentes.  Em épocas diferente. Tão longe se encontravam um do outro. Tagor, por si só, começou a ligar os fatos. A xícara com os números, o bule, as flores. Lembrava do gato da lenda, ele tinha uma panela presa ao rabo. Talvez quem sabe, fosse aquele bule que aparecia no quadro? E se  pertencesse ao rei Luiz XV era, sem sombra de dúvidas, uma peça valiosíssima, para qualquer época. Para um colecionador uma relíquia! Quem sabe a vasilha real estivesse ainda por lá, largada no pé direto da ponte. Talvez, depois que passou o vão da ponte tenha se soltado do rabo do gato e ido ao fundo do rio. Tagor e Chouchoulina, ela e ele, mesmo sem o saber tinham um encontro marcado. Tinham ambos, uma viagem a fazer. Uma viagem que os levaria, quem sabe, para dentro de si mesmo.



Fabio Campos, 03 de Abril de 2017.     

A PONTE DE MONTOULIEU (27º Episódio de T.F.)


Sol em abundância debaixo do céu. Havia também, muito azul de céu, e muita luz, pra compensar. E tudo, era muito real. Cada pedra pisada, cada grão de areia debaixo dos pés calcado, fazia sentido. Respirar ar quente era tão real, quanto sufocar. A rua, tão distante estava, mas se sabia que estava lá. Em algum lugar que não se sabia precisar ao certo. As pessoas, por ilusão imprimida aos olhos tremiam debaixo do sol. E mesmo sem saber se haveria amanhã todas as coisas eram absurdamente reais. Nada do que estava ali, tinha a menor importância de ser fato escrito, de estar nos livros. Até porque, por mais que tentasse, não haveria no mundo escritor, capaz de descrever com total realismo, a verdade que estava ali. Ainda se alguém contasse, infelizmente ia parecer mentira. Bem ali na nossa frente, havia uma muralha. Hirta, na mais completa acepção da palavra. Muralha gigante. Feita de pedra e turfa, estendida por quilômetros de extensão. Alucinava-se, danada de doida, e arrogância. Vertiginava-se pelos vales e campinas. A perder-se de vista, a deixar só o rabo debruçado por cima da cadeia de montanhas.  A primeira coisa que vinha a mente de quem a observava era: quem teria tido espetaculosa e absurda ideia de construí-la? Que mente megalomaníaca teria concebido tal empreendimento? Quantas vidas se enfiaram por dentro dela, quantas se perderam, até que fosse edificada? 

Esmeraldina gostava de gatos e de flores. Não sabia ao certo, se mais de gatos ou de flores. Sua mãe dona Deolinda, dizia: “-Não gosto de alguém que chega aqui, e diz: Dê-me um desses gatinhos pra eu criar! Tempos depois encontramos os pobres largados, nas ruas. Arriscando levar pedrada dos meninos. Roubando comida nas cozinhas alheias.” Dona Deolinda, tinha razão, outro dia, ao ir ao barreiro buscar um pote d’água, encontrou um dos gatinhos que a filha tinha dado a uma amiga. Estava perdido, tremia de medo, magrinho! Morrendo de fome! Era só pele e osso. Tanto miava que já rouco estava. Soltava um miado fino, insistente. Pra não decepcionar a filha, levou-o para a casa de Amara sua irmã. A tia de Esmeraldina teria dado ao gatinho o nome de Bola de Gude, por causa da cor dos seus olhos. Um dia, a menina iria descobrir tudo, mas já seriam outros tempos. A casa da mãe de Esmeraldina tinha tanta planta e gatos. Era casa singela, de gente pobre, mas honrada. Erguida de vara entrançada preenchida com massapê. Era casa simples, mas tão bem cuidada. As plantas eram tantas, e tanto colorido emprestava a construção rústica, dando-lhe outro aspecto. Tornada pela simplicidade agradável a alma. Trepadeiras se contorciam, escalando os caibros de apoio do alpendre. A casa tinha cheiro de flores, que lutava, quase sem lograr êxito, encobrir o cheiro dos gatos.

Tagor e Parantrophus ainda estavam na taberna, bebendo. O candeeiro pendia, atado a um pedaço de couro negro, enquanto liberava um fio de fumo, que ia subindo, e logo sumia. A misturar-se com o ar, impregnando de outros odores. As essências, cada uma tinha o compromisso de trazer determinadas lembranças. Retalhos de momentos que retornavam bem nítidos, de coisas ocorridas. E que ficaram eternamente marcadas, pelo apurado sentido do olfato. O cheiro de óleo de coco, do sabão de pedra, se enfiando pelos buracos das ventas dos aventureiros. Trazendo as lavadeiras de roupas lá do cais do porto. Vinham  vagantes pelas retinas telúricas de suas visões. Mulheres, volumosas, com as roupas molhadas coladas aos corpos. Corpos nutridos de muita proteína, e oleosidade, se acumulando debaixo da epiderme bronzeada. Os seios enormes e flácidos balançando frenéticos no puxa, repuxa dos panos, quase se expondo a apreciação pública. 

A chegada das embarcações. Os gritos dos marinheiros assanhados, impudicos. Acendendo-se neles o desejo sexual ao verem mulheres, depois de tanto tempo, de enfadar-se de só ver os mares. O cheiro de bacalhau se insinuando pelos engradados de madeira, trazendo o esvoaçar das gaivotas, dos albatrozes, dos pelicanos, à cata duma sardinha descuidada, nadando na flor da água, ou surpreendendo algum dos pescadores na despesca das redes. Tantos tragos de rum, Tagor já havia ingerido, que insensível o paladar já nem mais reagia a adstringência do álcool. Ao acre doce sabor de carvalho, do barril onde envelhecera o destilado. As palavras do amigo agora, ressoavam como num sonho, ecoando longe, muito longe. Sua voz chegava-lhe como peixes voadores, lentamente, que atônitos fugiam, da boca de um tubarão horrivelmente asqueroso. E tentariam escapar buscando dentro dos seus olhos abrigo e salvação. Um deles veio-lhe com olhos tristes, como os de Antonieta.

No encaixe da moldura da pintura do bule com flores e da xícara com números com a frase: “Cafés des Fleurs – Jardin des Luiz XV”  Chouchoulina a bailarina do cabaré do subúrbio de Paris encontrou um envelope que continha uma folha de papel com uns escritos a pena e tinta da China. Era como uma carta, ou poema, um manuscrito em francês, encimado de uma ilustração que aparecia um gato negro, um castelo, uma ponte, um nobre, e um diabo com chifres e tudo. Chiclete o seu gato de estimação, dum salto subiu na mesa. Assim que ela começou a ler, o bichano se fez todo ouvidos. Parecia estar entendendo, cada palavra que a moça pronunciava.

“Perto da formidável fortaleza de Foix, na região de Languedoc, em França. Não longe da fronteira com a Espanha, há uma ponte. É a ponte de Montoulieu, que existe até hoje. Pois dela se conta a seguinte história: Numa manhã, Raymond Roger, conde de Foix, acordou de péssimo humor. Desse jeito fez selar seu cavalo favorito e partiu ao galopo rumo às montanhas. Atravessou o burgo de Foix, entrou pelo caminho ao longo do rio Ariège. Ia cavalgando no sentido contrário da correnteza. Ao chegar a região de Ferrières e Prayols  mandou o cavalo cruzar o córrego. Porém o cavalo não quis passar. O conde ficou furioso, deu meia volta e voltou pro castelo. Mandou vir a sua presença o barão de Saint-Paul e encolerizado lhe disse: Eu te ordeno construir na região de Ferrières e Prayols uma ponte sobre o rio. Se em um mês não vejo a ponte. Tua vida vai pender de um fio. Acontecia que o barão era um poeta, um gastador, um tostão não tinha para o empreendimento. E lamentando disse: -Ah! Um pacto com o diabo eu faria para sair desta enrascada! Imediatamente o chifrudo apareceu-lhe a frente dizendo: -Tua ponte estará pronta no dia combinado! Entretanto, o que tens para dar-me em troca? O barão respondeu: -Eu te juro pela minha honra, que a alma do primeiro que passar pela ponte será tua! E cada um foi pro seu lado.

A partir daquela data o barão não foi mais o mesmo, estava cada dia mais triste. Um pacto com o diabo, tinha feito. Cheio de remorso foi até a igreja do mosteiro de São Volusien. Ali, envergonhado se prosternou no chão, chorando. O reverendíssimo abade reconheceu no homem prostrado, se tratar do barão de Saint-Paul. Este então lhe confessou seu pecado. O reverendo abade lhes disse; -Amanhã vos farei uma solução! No raiar da aurora apareceu bem construída a ponte sobre o perigoso curso d’água.  Belzebu instalou-se sobre o murinho da ponte, aguardando o primeiro passante para levá-lo ao inferno.  Eis que envolto numa capa preta apareceu o barão de Saint-Paul. O diabo dele zombou, dizendo: -Ah! Então será tu o primeiro a passar a ponte? Abrindo uma sacola ocultada sob a capa, o barão puxou um enorme gato negro, que tinha uma panela presa à calda. E disse: -O primeiro a passar, é este aqui!  O gato saiu disparado cruzando a ponte, fazendo grande escarcel. Soltando vapores pelas orelhas o diabo partiu no encalço do barão, que desde já descia a estrada, correndo morro a baixo. Eis que na encosta do morro surgiu a procissão dos monges de São Volusien. Eles vinham cantando a Ladainha de todos os Santos, com a cruz na frente. Levantando o hissope o abade aspergiu a ponte com água benta. Imediatamente o diabo dissipou-se em fumaça negra afundando sob a terra. E, por muitos e muitos anos, ninguém se aventurou, nem dia de dia, nem de noite, atravessar a ponte de Montoulieu.”

Esmeraldina se tornaria namorada do capitão Aquino de Lucena. Mas somente quando completou dezoito anos. Bola de Gude o gato, o caçula da família, dentre os irmão de Derick, vivia com ela. Era o preferido, foi presente de sua tia Amara. Não sabia ela, que sua mãe o encontrara no barreiro abandonado. Milu, a gata mãe de Derick, não sabia dessa história. Não, até o dia que Tagor a visitou no Asilo para idosos São Vicente de Paula. O problema era que gatos urinavam nas caqueiras das plantas. Faziam isso para marcar território. Para que os gatos da vizinhança não viessem invadir seus espaços. 

O capitão Aquino, ao botar os olhos na menina, a desejou para si. Imediatamente a quis para sua namorada. Mas eram tempos muito difíceis. Muito lá trás. Tempo em que se namorava por carta. Ele buscou informações sobre a moça. Descobrindo a respeito de sua vida que a mesma tinha aulas com o padre e também dava aulas a meninos pobres em sua própria residência. A vila caçoava do capitão, pelas costas, por que não gostava de andar a cavalo, preferia ir a pé. Pra pequenos percursos, como andar pelos arredores, preferia ir a pé. Sobre isso os aldeões diziam: “-Anda a pé, que nem comprador de porco!” Ora, se não era pela necessidade de levar seu produto adquirido (que além de pesado e vivo, era barulhento!) que o comprador de porco tinha que andar a pé! Além do que amarrava o bicho, por uma das patas traseiras. O capitão não gostava de montar, pra não ferir seus bagos muito sensíveis. Isso poucos sabiam. No entanto ele sabia, que Esmeraldina gostava de flores e gatos. Isso era um trunfo. E tornava tudo muito mais fácil.

Fabio Campos, 27 de Março de 2017.