A Hidra de Luanda (17º Episódio de T. Fashall)

O rio secou. Os olhos d’água secaram. Os olhos de Odiba também secaram. Duas lágrimas sulcaram dois rastros no seu rosto empoeirado. A pele de tálamo ressequida, amorenada. Os braços criaram uma crosta de pó ceramizado, luzidio. Duma cor persistente que ia em todo canto, nas paredes da casa. No terreiro de casa, de mesma tonalidade também a cerquinha do chiqueiro. Lá acolá, calado, que nem porcos tinha mais. Estavam todos mortos. Morreram de fome. O pote de barro, a única coisa gorda naquelas redondezas, ainda que oco, reluzia sua barriga avantajada. O tecido da saia de Amérida, das poucas coisas que ainda tinha alegria por ali. Os meninos homens sabiam de histórias e causos antigos. De seus antepassados, e que tanto prazer tinham em contar. Especialmente aos pequenos, para que levassem a diante suas raízes, suas tradições, seus costumes, suas origens. E nunca sonharam possuir bicicletas, simplesmente porque jamais tinham visto uma.

Zanzi-bar caiada, a refletir pureza nos seus palácios. Nas palmeiras que escalavam escadarias, peitoril de casas e fachadas. O mercado das especiarias. Todos ali, sabiam de um mundo subterrâneo. Por onde ratos e cobras humanas sobreviviam, e negociavam vidas. Negociavam ouro, drogas, marfim, animais exóticos, e gente. Comprar e vender negros, era comércio rentável. Negro mercado, mercado negro de esgotos fétidos. Rua dos porcos. Os curtumes a céu aberto. A atraírem urubus pros altos telhados dos sobrados. O bate bate das peças de couro nas pranchas encardidas. Um demônio chamado Delirium ficou olhando pra baixo, mirando um mortal dentro da sala. Do beiral de outra casa em frente olhava. O homem sentado à mesa lançou impropérios contra aquele, sem sequer o visse. Sem mesmo saber que o deletério, gosmento lá estivesse. Assim que tocou no livro sagrado, o demônio fez menção de alçar voo, mas suas patas asquerosas, com garras de abutre, resvalaram nas telhas do beiral, lançando fora algumas delas. Uma dúzia de telhas foi se espatifar na calçada. As palavras, feito setas certeiras acudiu o homem de terno. O chapéu continuava no cabide. A mulher admirou-se da cena. E adivinhando o que acabara de suceder, comentou que as palavras santas com seu poder acabara de os salvar. Nem sequer foram proclamadas, apenas expostas ao ser ignóbil e espantou-o pra longe deles.

Tagor estava sentado a uma mesa. Era mesa grande feita do tronco serrado ao meio. Um caule de embodeiro planta nativa da África. Mesa larga, de lastro grosso, rústica, como tudo naquele lugar distante. A ilha africana habitava homens, espíritos e cenas belíssimas, como as mulheres que praticamente ninguém via.  A mesa de madeira nativa, liberava junto com a lignina, um odor bastante aromático. Sedutor como aquela tarde a beira mar. Um copo de vidro, passado de vinho tinto. Ainda mais inebriante, com seu perfume acre doce seduzindo os rostos, as sombras, os quintais. Um brinde a vida, a saúde, e as amizades. Cesar com seus olhos de pedra olhou pro céu, pintando ainda mais tudo de azul. E disse que todos ali, precisavam saber duma história que acontecera com ele, da última vez que ia a caminho de Luanda. O chapéu de tala branca resolveu tirar da cabeça, e os longos fios de cabelo negro ficaram colados no suor da testa alva. Deu-lhe aparência da imagem de uma estátua da deusa hidra que havia no palácio do reino dos macacos.

A mãe de Tagor estava lá longe, sentada numa cadeira de vime. Debaixo dum coqueiro baixo, olhava em direção ao mar. Tinha nas mãos uma espécie de novelo de pano de linho branco, coberto de inscrições feitas com linha preta. A cadeira forrada com uma almofada recheada de algodão. Coberta com um tecido decorado com desenhos de plantas de folhas largas e grandes,  uma cabeça de arara vermelha no respaldo. Tudo aquilo fazia a festa da tarde de sol. A planta do desenho era uma “Welwisschia mirabilis” que só existe no deserto do Namibe, em Angola. É planta rasteira, de caule lenhoso que não cresce. Possui raiz enorme e duas folhas em forma de canoas compridas. Com o tempo as folhas podem atingir dois metros de comprimento, e se esfarrapam nas extremidades, dando ideia de tentáculos. De incrível longevidade. Tinha delas, que conseguiam viver mil anos de vida. Tagor tinha esperança de um dia descobrir como conseguiam sobreviver tanto tempo num ambiente tão hostil como o deserto. E a água de que necessitavam como conseguiam? Isso era um segredo que não demoraria muito a descobrir.

Cesar passou a contar a aventura que vivera, na estrada que um dia o levaria a conhecer Dacar. No meio do deserto de Namibe ocorreu, no terceiro dia de jornada, uma tempestade de areia. Um dia e meio tiveram que ficar debaixo das lonas, esperando a tempestade passar. Quando veio a calmaria o deserto havia se transformado, totalmente. Onde antes só areia havia, uma planta estranha aflorara por toda parte, a hidra de Luanda. Nunca ninguém tinha visto nada igual. O deserto agora aqui e acolá recoberto de uma planta que possuía duas grandes folhas apenas. Plantas que encerrava uma terrível maldição. Os camelos que se aventuraram comer dela, morreram de morte esquisita. Ao simples toque na erva maldita e caiam desfalecidos espumando até darem o último suspiro. A carne escurecia, apodrecia e se consumia em questão de segundos. Só o esqueleto do quadrúpede de casco bipartido restara. Atestando o efeito maléfico do maldito vegetal, surgido das entranhas do deserto. Os tuaregues da caravana de Cesar entenderam que a planta altamente venenosa devia ser evitada. Algo ainda mais terrível estava para descobrir. Ao cair da noite sob o vento frio um escravo da caravana levantou-se para aliviar a bexiga. Ao afastar-se do acampamento foi ao encontro de uma daquelas plantas maldita. Gritos aterrorizantes foram ouvidos naquela madrugada. A hidra como que dotada de inteligência com seus tentáculos agarrara o pobre negro e devorava-o vivo. A cada ponto que as farpas das pontas das folhas tocavam a carne se diluía. Feito ácido corrosivo a seiva consumia as carnes do pobre homem até transformá-lo num esqueleto, totalmente.

Odiba e Amérida sobreviveram àquela viagem de travessia do deserto. Tagor voltaria lá, exclusivamente para pesquisar aquela planta carnívora. Antonieta passou o mês de maio na companhia de João, Marcos e Lucas. Ocuparam a casa do vale de Omino no Sudão. Antonieta de tanta preocupação adoeceu. Caiu de cama, teve febre e alucinações. Teve que ser levada ao campo de concentração dos soldados ianques. Os que combatiam contra os radjistas. Para os quais aquela tratava-se duma guerra santa. Mulçumanos contra católicos. Os boinas verdes odiavam este tipo de ideologia. Lutavam por outro ideal, morreriam se preciso fosse, em defesa de outra causa, o maldito patriotismo. Antonieta tomou remédio americano. E teve visões e alucinações. Sentada na maca do hospital viu Tagor avançando no deserto montado num cavalo de fogo. A espada sibilando no ar. O rosto crispado, a boca aberta, os dentes a mostra. De repente areia começou a flutuar, e era como cristais brilhante, como puro ouro em pó, a soar como milhares de sininhos. Num som muito bom de ser ouvido. E agora com seus lindos seios amamentava João que dormia no seu colo. Alisava seus cabelos. Figos e damascos desenhados num tapete pendurado na parede, de repente começaram a sair da estampa e se materializavam e avançaram em sua direção. E mesmo sem comê-los, sentia-os tão saborosos.

Senhor John e senhora Clarice ainda estavam na sala. Pra ela, era difícil, nem um pouco fácil assim, acreditar que simples sinais de pele, tanto poder exerciam sobre as criaturas. Sinais seriam na verdade, decodificadores, espécies de senhas que abriam caminhos pra que mensagens vindas do espaço pudessem ser decifradas. Civilizações distantes os possuíam. Lá no cosmo, onde civilizações intergalácticas habitavam sinais eram elementos identificadores de seres semelhantes a nós. Tagor, na sua terceira viagem ao planeta vermelho. Ao aportar, foi reconhecido por um sinal, que tinha na parte interna do lóbulo da orelha direita. Foi o que o salvou, pois o príncipe Godar, da nação marciana semelhante sinal possuía.


Fabio Campos, 04 de Dezembro de 2016.


P.S. A Gravura que ilustra este episódio, é um flagrante captado com câmara fotográfica, numa loja do shopping center de Arapiraca. 

Sinais (16º Episódio de T.F.)

Senhora Júlia se encontrava sentada sobre uma pedra imensa. A pedra era parte de um lajedo, que se estendia galgando altura, as suas costas. Ainda trajava as mesmas veste com as quais havia sido assassinada. As manchas de sangue, no entanto, não mais havia. Os braços mantinham-nos apoiados sobre as coxas, o tronco se insinuando sinuoso, esbelto, ereto. Serena e contemplativa tinha a face voltada pro horizonte, a sua frente. Um imenso deserto de areia fina donde podia se vislumbrar muito longe, onde a vista não conseguia alcançar. Um mar de águas calmas, feito de um azul profundo que cintilava, sob um céu lilás, sem nuvens, sem estrelas, sem nada. Vento de nenhuma direção soprava. 

De modo que seus belos cabelos praticamente não se moviam. Dando-lhe aparência de uma gravura, uma fotografia antiga. Como o cartaz de um filme, da década de quarenta. Sem brilho, quase sem cor, estática, emblemática, taciturna, porém pragmática. Num clima de mistério, envolta. E o que mais parecia era não haver ali, qualquer outro tipo de vida, além daqueles dois: Júlia e senhor Edgard. No entorno e talvez a milhares de quilômetros e por uma eternidade inteira ninguém além deles. Dava perfeitamente para perceber a falta de alguma coisa, que talvez nenhum deles soubesse explicar direito o que. Talvez houvesse naquele lugar ausência de saudade, de tristeza, de melancolia. Outros sentimentos físicos intrínsecos a vida humana não houvesse. Dava pra perceber ali, não havia calor, ou frio. Percebia-se a ausência de insetos, do pipilar de pássaros. O soprar da brisa, o vento, a poeira da areia do deserto. Que lugar era aquele, meu Deus?

Senhor Edgard estava como que ocupado com um livrinho vermelho, um pouco maior que um maço de cigarros. Com uma caneta, nele fazia anotações. E só agora dava pra perceber que havia uma lua que era a fonte de luz que iluminava todo o cenário. Senhora Júlia com uma pergunta desconcertante quebrou o silêncio: -Posso saber porque o senhor matou-me? Segurando o aro dos óculos com a mesma mão que segurava a caneta, o homem de terno impecável e chapéu Prada, com a calma que lhe era peculiar respondeu: -Dona Clarice, a senhora não está morta. Senhora Júlia entendeu menos ainda. Isso mesmo, seu verdadeiro nome é Clarice, já eu chamo-me na verdade, John, mas isso não explicarei agora. Vamos aos fatos. Naquele instante o ambiente se transformou numa espécie de sala de projeção. Os dois agora estavam comodamente sentados em cadeiras de encosto almofadado, e repouso pros braços. Lado a lado posicionados sobre um tablado como um palco de teatro. E na tela apareceu a cena do crime. Lá estavam os dois revivendo os momentos que ocorrera o suposto assassinato da senhora Clarice. E senhor John disse: -Observe quando eu saco a pistola, você não vê, mas logo de detrás da cortina um homem, senhor Willians, dispara um dardo que atinge seu pescoço. Esse dardo contém um tranquilizante que fez com que você entrasse em transe. Tudo o mais que você viu. Os tiros, o sangue na roupa, eu lhe amparando até você dar o último suspiro, tudo não passou de ficção. Tudo encenação que induziu a sua mente a crer que aconteceu de verdade.  

Senhor John continuou: Como havia combinado de participarmos de um jogo aonde tentaremos confirmar uma hipótese que lançamos, de que os fatos se sucedem de modo a repetir-se. Isso incluirá uma volta através do túnel do tempo. Sou arqueólogo, durante uma expedição na Cisjordânia em 1972 minha equipe e eu numas escavações no delta do rio Jordão uns escritos que devidamente traduzidos levou-nos a uma descoberta incrível.    
A casa dos meus avós, onde eu sempre passava as férias. Assim como todas as casas do mundo. Todas carregam uma fonte de energia que vai sendo transmitida de geração a geração. E todos os acontecimentos do passado tendem a se repetir no futuro. De uma forma ou de outra elas tornam a acontecer. Vamos reconstituir o caso da morte dos meus avós: Jairo e Letícia. O casal de velhinhos encontrados mortos no quarto, deitados na cama, supostamente degolados. E que a polícia dera por encerrada o caso, como duplo suicídio. 

Vamos voltar lá dentro da casa. Não nos dias atuais, mas em 25 de março de 1945, o dia fatídico para meus avós. Descobri que o casal de velhinhos encontrados deitados na cama mortos, não eram meus avós. Apenas fisicamente pareciam com eles, mas sei como tudo ocorreu. E onde meus avós se encontram neste momento. O casal encontrado mortos na cama se chamava Heloísa e Pinheiro. Naquele dia também foram eles pro lago pescar, era uma manhã ensolarada. Meu avô fez uma fogueira na areia a beira d’água. Acamparam naquela noite, a beira do lago. A barraca de lona existe até hoje. E ficaram até altas horas olhando as estrelas, e conversaram muitas coisas, sobre os anos de casado, sobre os filhos, as conquistas, as dificuldades que enfrentaram até chegar ali. Não era um casal tão velho assim, vô Jairo, também Pinheiro contavam com 57 anos, vó Letícia, assim como Heloisa 48. Dali uma semana fariam aniversário de casamento. Haviam programado uma reunião de família pra comemorar os 30 anos de casados. Nada levava a crer que quisessem morrer.  Nenhum um nem outro casal, vontade ou motivo teriam pra cometer suicídio. Nada na vida deles levava a isto. Um surto psicótico, um histórico de esquizofrenia, talvez vindo dos ancestrais, nada. Aquilo era um desafio pro mais experiente perito criminal, ou estudioso da psique humana.  

Senhor John tentava explicar pra senhora Clarice o mistério, a descoberta feita nas escavações do deserto, lá no oriente médio. Quase que acidentalmente descobrira o que estava para revelar. Utilizando um raio de luz infravermelho dentro da câmara onde havia um sarcófago, encontrou o que supunha ser a chave para o enigma de tantos casos de fatídicos, fatos ocorridos sob estranha circunstância. Em especial os que aconteciam dentro das casas, no meio das famílias. Começou a juntar o quebra-cabeça a partir de uma foto de sua avó, ainda jovem, trajando um vestido vaporoso que deixava a mostra boa parte das espáduas e colo. Chamou-lhe atenção a incidência de três sinais de nascença. Pintas pretas destacadas na pele alva. Mas o que teriam mesmo 3 pequenos sinais a ver com os assassinatos? 

O fato de que nas gerações anteriores dos avós de senhor John, uma sobrinha, Cíntia Flores, também apresentava os sinais sobre a pele, com a mesma simetria, só que no abdômen e ventre. Um tio de sua mãe Tião Dionísio, possuíra os mesmos sinais, sendo que na coxa ventre e virilha sempre estabelecendo semelhança na simetria. Ao ligar os sinais entre si, indo de um ponto ao outro, traçando linhas retas tinha-se a formação de um desenho que parecia uma taça, uma tulipa talvez. Senhor Pinheiro e Heloísa, nenhum dos dois possuíam os sinais. O mais interessante senhor John deixou pro final, levou Clarice até a sala de sua casa, não fisicamente, mas em transe. Seu corpo se encontrava mesmo, deitado numa cama de um laboratório de ciências, em algum lugar de Oklahoma. Apagou as luzes e ligou um feixe de luz que deixou o ambiente numa penumbra azulada. Acionou um dispositivo que encheu a sala duma fumaça, que se tornou igualmente azul, imediatamente no centro da sala, pairando no ar três pontos vermelho intensamente brilhantes. Os mesmos sinais que apareciam sob a pele, dos corpos dos antepassados do senhor John, estavam lá. No meio da sala, em três dimensões pairando no ar.



Fabio Campos, 26 de novembro de 2016.

P.S. A gravura que ilustra este episódio é de Santa Beatriz da Silva e Menezes. Comemorada em 01 de setembro.

*PALO SECO (15º Episódio de T.F.)












Uma mosca varejeira, incômoda esvoaçava sobre as costas da mão. Descarnada, ossuda, de veias grossas do velho homem. Donde se desenhava rios subterrâneos, em alto relevo, formando mapa hidrográfico, que levavam sangue verde, pra dar vida aos dedos. Impaciente vinha a outra mão, violentamente bater sobre a primeira. Vã tentativa de por fim a vida alada do inseto. O segundo menino da bicicleta olhava o infinito a sua volta. Observava a luta das mãos do velho pai, contra a mosca. Os dois de cócoras. Aguardavam chegar a vez de pegar água no açude. Eram os últimos da fila. Em silêncio o menino pensava. Em que pensava?

No dia que cometera o maior delito, de sua outra vida. No tempo que morava na cidade. E ia sempre a casa do menino da rua de trás. Um crime cometera. Um roubo cometera. Enquanto o amigo tomava banho. Sob a blusa, escondeu figurinhas do álbum de jogadores das seleções de futebol, de todo o mundo. Saiu às pressas, sem esperar que o amigo retornasse. Pareceu que, ele jamais percebera, ou se percebeu, nunca tocou no assunto. Durante toda a infância cometeria outros pequenos delitos. No pomar da casa das sete mulheres roubo de tamarindo. No quintal do promotor de justiça furtara cágados. Do jardim do doutor esculápio, figos surrupiados. Das árvores do paço municipal, amêndoas. Mas nada fora tão grave quanto as figurinhas do álbum do amigo, da rua de trás. Até porque para os outros crimes houvera álibis perfeitos, cumplicidade dos demais, pequenos delinquentes. Achava que aquilo não passava de um sonho. E que aquele menino nunca, jamais fora ele.

E viria a semana santa daquele ano, e haveria a necessidade de se confessar, de contar pro padre, os pecados. E sempre escondia as faltas cometidas sozinho. Contava somente os pecados na companhia de outros. Pecados em grupo, dava pra dividir a culpa. E o sol sabia de tudo. Aonde fosse ele estava lá, como que dizendo “Eu vi tudo”. O sol era como Deus. Talvez fosse o próprio. Dando vida, e tirando, na hora que achava necessidade, de uma, e de outra coisa. Definitivamente não contaria aquele pecado. Afinal não fora ele que cometera.

“Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo, eu me desesperava”

Em 1973 Tagor estava no Chile. Morava lá. O rigoroso inverno chileno, nada comparável ao governo de Augusto Pinochet que acabava de subir ao poder. Lembrava agora mesmo de como era desesperador perder a sensibilidade dos dedos. O gelo invadindo lentamente o corpo. O frio como que dizendo: “Vou te matar, mas não tenho pressa. Farei isso bem devagar, para que saibas o que é morrer de frio”. Era onze de setembro daquele ano. O golpe militar, as ruas, as casas, as mentes tudo sendo invadido abruptamente. Assim como o frio sem o menor remorso, sem dó, sem culpa. Desbotando a coragem ou qualquer tipo de entusiasmo de quem quer que fosse. Salvador Allende caindo, vertiginosamente caindo. Despencando dos púlpitos das praças, dos brasões incendiados. Nos retratos das repartições rasgados. Já não mais a olhar sereno pro futuro. Não havia mais futuro. Debaixo das patas dos cavalos, o socialismo sufocado, pela flâmula, pelas armas tripudia do soldado infame. Os ideais de igualdade esmurrados, tudo e todos terrivelmente feridos de morte. E o som de uma gaita silenciaria, e não mais acalentaria uma fogueira, que agora queimava, ardendo em frias chamas, os corações dos pobres gigantes. E as submetralhadoras a vomitar projeteis varando incólumes os peitos varonis. Enquanto os olhos vendados da justiça, apenas ouvia, nada via. Não via o derramamento de sangue, os paredões dos fundos dos prédios públicos lavados de heroísmo, lavados de sangue de mártires. Lá do alto a águia com suas asas abertas. De ódio, puro ódio abria o bico.

“Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português”

O outro menino da bicicleta, morava no Brasil. Era o que as moscas perturbavam a ele e ao velho pai. Morava no vale do Cariri, no Ceará. Estava agora sozinho, de frente a sua casa, de taipa. A mãe e o pai entraram, a buscar água cor de barro trazida do poço da cacimba. O jumentinho acinzentado e seu sinal, uma bola preta, na parte interna da pata direita. E estremecia o couro naquele ponto, toda vez que uma mosca pousa lá. De repente, do nada, surgiu-lhe a sua frente um menino. Pelos trajes devia ser um indiano. Mas o menino do sertão não sabia disso. Sem dizer palavra, apenas o observava. E sem que saíssem nada de sua boca perguntou seu nome. Entendeu que estava tendo uma visão, e que o menino estranho, de roupas coloridas e turbante, falava sua língua penetrando-lhe o pensamento. Ouvia sua voz, dentro da sua cabeça. Pensou em correr, fugir dali. Mas pra onde iria? O menino da visagem repetiu: “-Meu nome é Tagor. E o seu?”

“Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força deste destino
O tango argentino me vai bem melhor que o blues”

Mas, e como eram as bicicletas naquele tempo. A “Monareta” tinha uma espécie de torneira no meio do quadro. Nunca soube exatamente pra servia aquela torneira. O menino do sertão queria tanto ter uma bicicleta. Mas tinha que ser daquelas de adulto, uma “Monark”. Não queria uma “Caloi” da propaganda de natal. No sapato o bilhete: “Papai não esqueça da minha Caloi!”. Uma daquelas nunca lhe enchera as vistas. Bicicleta de almofadinha. Precisava de uma que aguentasse o trampo, a lida pesada da vida no campo. Tagor nada prometeu, muito menos dar-lhe uma bicicleta. Não entendia de onde o menino tirara aquela ideia que ele talvez fosse uma espécie de gênio da lâmpada. Não, não estava ali pra realizar desejos de ninguém. Sua missão era bem mais complexa. Uma coisa era certa, não tinha pressa. Precisava acompanhar o menino na sua lida diária. Precisava conhecê-lo melhor. E descobrir se nele encerrava os pré-requisitos para a missão a qual deveria empreender, juntos. Tempo era o que mais tinha no momento.

“Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 73
Eu quero que esse canto torto
Feito faca corte a carne de vocês”

O homem de terno, disse a mulher ruiva. Eu vim até sua casa com uma missão, digamos assim, bastante desconsertante. Mas infelizmente terei que fazê-lo. E qual seria essa missão? Quis saber. Simples: matá-la. E sacando uma pistola automática, provida de silenciador, efetuou três disparos. E o som era como um pedaço de pau seco quebrando. Os projeteis penetraram o tecido vaporoso das vestes da mulher. Imediatamente viraram três rosas de sangue: uma no colo, outras duas, no peito e abdômen. Antes que caísse foi amparada, e cuidadosamente depositada no chão, por seu próprio assassino.

Fabio Campos, 18 de Novembro de 2016. 

*P.S. Este Episódio está entremeado da música de Belchior "Palo Seco"; do espanhol, quer dizer 'pau seco'. A gravura é do próprio autor, com sua aluna Carla Dantas, no dia do 'halloween' deste ano.   



O Jogo (14° Episódio de T.F.)

O homem de terno sóbrio, e chapéu, apertou a campainha, e ficou esperando. Posicionou-se de modo a ficar de frente pro olho mágico. Para que pudesse ser visto, porém não reconhecido, pelos que moravam na casa. Aproveitou para olhar em derredor. A morada era uma construção alegre, arejada, a tonalidade dominante de paredes, janelas e cortinas era a cor branca. Tinha sacada, varanda, jardim, tudo muito amplo e bem cuidado. Plantas ornamentais esmeradamente cuidadas. O telhado americano, de conchinhas avermelhadas, contrastava com o céu azul, pontilhado de flocos de nuvens branquinhas. A vizinhança de casas identicamente serenas. Pareciam dormir.

O homem pousou a maleta no chão. Tirou o chapéu, tentou abanar-se com ele. O cabelo bem cuidado dava indícios de que logo teria o dobro de fios brancos nas têmporas que tinha agora. O rosto másculo, porém suave, barba bem feita. Aparência de um pastor evangélico, branco, inglês, da década de trinta. Tentou adivinhar que horas seriam. Pensou em 13 horas. Consultou o relógio de pulso, errou por 35 minutos. Dispôs-se apertar, mais uma vez a campainha, e de lá dentro, ouviria o insistente e sonoro ‘din-don’ como que dizendo: ‘por favor. Alguém atenda à porta!’. E eis que se abriu. O indicador ficou suspenso no ar. Inquisitivo apontava pro nada. Talvez pra aquela que abrira a porta.

A moça surgida a sua frente, era uma ruiva muito bonita. Nos lábios um batom vermelho vivo. Os olhos claros, os cílios arqueados, as sobrancelhas sinuosas como que diziam: ‘Quem é você?’. O corpo escultural, amplamente favorecido dentro duma blusa vaporosa e saia elegantemente rodada, tão em voga nos anos 40. A segurar ainda a maçanenta os cumprimentos. O inevitável, mais por educação, convite a entrar. O homem apresentou-se com sendo Edgard Piazzentini, professor. Ela disse chamar-se Julia Maldonado, esposa de Robert Maldonado. O homem queria saber pra início de conversa, à quanto tempo aquela família habitava a casa. A moça ainda mais curiosa esclareceu que desde que se casara, fazia dois anos. Edgard tinha uma história interessante pra contar.

Menphis Thophelis a macerar com as mãos uma bola invisível enquanto pronunciava palavras ininteligíveis. Em torno de si, uma densa nuvem multicolor girando, alucinadamente girando a tomar forma, mais e mais. E uma micro galáxia de pequenos planetas, de milhares de minúsculas estrelas, asteroides e meteoros no sentido horário a girar intensamente em torno do seu corpo. Finalmente a bola incandescente se materializou. Permaneceu flutuante a sua frente. E Menphis somente com a força do pensamento arremessou-a contra Tagor. O globo em fogo ardente voou furiosamente. A esfera de larva incandescente foi chocar-se no escudo de Tagor, voou brasa pra tudo quanto foi lado. De muito longe deu pra se ouvir o estrondo. Foram muitos os que temeram tal combate. A reação foi imediata Tagor atirou sua lança que varou o olho direito de Menphis. O demônio quase não se abalou, com suas próprias mãos arrancou o dardo cravado em uma de suas vistas. Isso serviu apenas para irritá-lo ainda mais. De dentro de um bornal que trazia a tiracolo, retirou umas estrelas prateadas de lâminas afiadíssimas. Arremessou à primeira, que partiu o escudo de Tagor em dois pedaços. A segunda vinha no ar e foi interceptada por um tiro da espingarda de Tagor. Três lâminas mais haviam pra atirar. Menphis o fez de uma só vez. A primeira e a segunda, encontrou o infinito como alvo. A terceira no entanto decepou o  braço direito que Tagor empunhava uma espada. O braço apartado do corpo tinha fios e circuitos que começaram a soltar faíscas. E Menphis entendeu que estava lutando com um cyborg. A máquina em forma de nosso herói se virou num transformer. O rosto perdeu a pele e adquiriu a textura metálica. Perdeu o cabelo e no lugar surgiu crânio de aço. Olhos, nariz e boca de ferro. O tronco era todo um tanque de guerra e de seu braço intacto lançou um torpedo contra o diabo, explodindo em milhões de pedaços.

João um dos meninos da bicicleta, estava no meio do mato. Havia parado pra descançar, Era seis da manhã esperaria Lucas. Eis que não demoraria  se encontrar, e iam conversando. O sol esquentando  altas copas das árvores. O orvalho das folhas de mato rasteiro molhando as canelas finas. As mutucas exercitando a arte de sugar sangue logo cedo. Os meninos, no dia anterior, a quatro mãos, haviam construído uma caverna na base da montanha. Tinham   armado umas arapucas pra captura de preás. E agora iam ver se havia logrado êxito, quem sabe pego algum herbívoro roedor. O tio Feliciano satisfeito ficaria, pois os roedores estavam estragando a plantação de palma. De repente do meio do mato surgiu Marcos. Todos estranharam o encontro inesperado pois não nada haviam combinado, de encontrar-se com ele ali. Ainda mais aquela hora. Sequer sabia ele da jornada matinal que os outros dois tinham inventado. O estranhamento foi geral. Marcos, por sua vez não conseguia disfarçar que não previa encontrar ali os amigos. Afinal o que estaria mesmo acontecendo?

Senhor Edgard, sentado no sofá da sala, com a canhota segurava com delicadeza o pires, com a destra a asa da xícara de café. Agora de óculos de grau, o que dava um ar de quem inspirava um pouco mais de confiança. Iniciara-se a contar sua história, dizia que naquela casa morara seus antepassados por parte de pai. Seus avós paternos, senhor Jairo e dona Letícia. Na época a casa não tinha vizinhança ficava isolada, praticamente um pomar. Viviam do que colhiam na roça, de frutas, hortaliças, granjeiros e da aposentadoria por velhice de ambos. E a forma com os dois foram mortos é que intrigava. Foram encontrados ambos degolados, deitados na cama. Não apresentavam nenhum distúrbio psíquico, na família. Pra polícia o caso foi arquivado como um duplo suicídio. Edgard, porém, jamais aceitou tal versão e pôs a investigar. Cinco décadas já haviam se passado de tão trágico acontecimento. Lembrou que não muito longe dali havia um lago. Onde seu avô costumava leva-lo quando vinha passar as férias com eles. E no lado oposto ao lago uma gruta no sopé da montanha. Mostrou uma foto dele e seu avô na beira do lago. Olhando com uma lupa Edgard fez uma descoberta incrível. Lá na entrada da gruta. Sob a luz do sol: Um brilho metálico, e tinha forma humana. Alguém trajado em uma roupa reluzente, como de extraterrestre.

Marcos resolveu contar a verdade. Disse a Lucas e João que naquela noite recebera a visita de alienígenas. Por volta da meia noite bateram na janela de seu quarto. Precisavam de ajuda para localizar um ponto exato no meio do mato, onde a nave espacial de um deles caíra. Um deles estaria perdido no meio do mato. Em vão tentaram localizá-lo, porém os equipamentos deles sofria interferência dos satélites que transmitiam canais de tevê aqui da terra. Talvez se a rede elétrica fosse desligada por alguns momentos quem sabe conseguiriam localizar. E lembraram que exatamente as duas da madrugada faltara energia elétrica em toda região. Esse fato foi confirmado pelo locutor do rádio pela manhã. adentraram a mata. O alien perdido abrigou-se numa gruta muito próximo duma casa sobre as árvores que os meninos tinham construído. Marcos amanhecera na mata e agora inesperadamente encontrava com os amigos. Os aliens não haviam partido agora estudavam o local e precisavam consertar os estragos na nave. Bem como os tripulantes que sofreram ferimentos leves estavam se recuperando. Agora eram três os que se dirigiam pra caverna onde eles se encontravam.

Edgard perguntou a Júlia se ela acreditava, na seguinte teoria: que, pra cada ação de um membro da nossa família, por mais distante que se encontrasse, uma ação equivalente acontecia com outro parente. Não sabia explicar direito mas ia tentar. Se alguém da família cometesse um delito, tipo matar, roubar e mesmo suicidar-se que não deixa de ser um crime, outro membro da mesma família se angustiaria, sofreria, se abalaria e entraria em desespero no exato momento do delito. Tentaria explicar o que nem mesmo entendia por completo. E propôs que estaria na hora de provar essa sua teoria. Pra isso Júlia teria que aceitar participar das regras do jogo.
  
Fabio Campos, 11 de novembro de 2016.

A Gravura que ilustra este Episódio é foto tirada por mim mesmo (autor e blogueiro) de Aika minha neta de 4 anos.