CAVALO DOIDO (20º Episódio de T.Fashall.)



O suposto sequestrador da irmã de Tagor, tinha cabelo vermelho metálico. De onde tirou essa ideia? Disse, ter achado no local do crime, fios de cabelo, que pareciam de metal. Poderia ser de uma peruca. Mas não era. Afirmou categórico, depois de analisar o achado, no seu laboratório. Concluiu que a ponta dos fios tinha bulbo, e raiz. Enfim, possuía material orgânico e genético. Aqueles saíram de algo que tinha vida. Havia fortes indícios de que o criminoso fosse um alienígena. Tagor fez investigação nos arredores da casa de sua mãe, pra ver se alguma câmara de algum estabelecimento teria captado imagem. Encontrou uma, na quitanda da esquina.


A vila, tão antiga quanto atual. Os prédios jamais envelheceram. As águias no alto dos pedestais, de belas asas estendidas. De ferozes garras crispadas sobre a flecha e a serpente petrificada. Olhavam com semblante fechado, ameaçador. As janelas, do prédio da justiça, nunca se cansavam de vigiar a rua principal. Poucos tinham ideia do que significava ser velho e atual, ao mesmo tempo. Os vultos históricos nos porões em molduras escuras e tristes adormecidos num torpor crudelíssimo, desumano. Envolveram-se em sombras, silenciados seus fortes brados de revolucionários, tempos depois chamados de heróis. Encerrados nos negros e sombrios canos dos imensos canhões. Em suas munições obesamente mortas, de agora. Enferrujados os vômitos de fogo e ódio, ressequidos, esquecidos. As bandeiras não mais flamularam seus azuis, seus brancos, seus vermelhos, de outrora. Alagoas distando de França e de Kansas apenas um lance de olhar. Traçar no mapa, um paralelo desde a Vila de Étole Chavalier, passando por Wichita no Kansas, indo a coordenada 09° 22’ 42” 43” W de latitude, e 37° 14’ 43” W de longitude, e teremos uma placa tectônica imaginária, cobrindo a Europa Meridional, e Américas Meridional e Setentrional. Pra ser mais exato, um maciço continental compreendido desde a vila da Ribeira do Panema no estado de Alagoas – Brasil, a uma cidade na América, indo a Vila de E. C. em França. Mas o que de comum havia entre estes três pontos geográficos? A meros mortais talvez nada dissesse. Aos meninos das bicicletas sim. Dizia, da origem de cada um deles. Marcos, Lucas e João.


Wichita foi uma das primeiras cidades em que Tagor vivera. Ainda era aldeia indígena quando isso acontecera. A vila surgiu a partir de três tribos indígenas: Keechi, Waco e Tawakoni os precedentes de Tagor eram desta última nação. Isso foi lá pelos idos de 1870. Na época o vilarejo contava com pouco mais de 600 aldeões, que vivam do comércio de pele de animais selvagens, e da criação de cavalos e gado de raça. Era entreposto, ponto de parada das carruagens, vindas do leste em direção ao velho oeste. A bandeira da cidade além das cores azul, branco e vermelho, traz até hoje, uma cabana de palha tradicional, e a silhueta de um búfalo e um veado. A família Braga ali se estabeleceu e cresceu a partir da domesticação e criação de cavalos selvagens. 

O avô de Tagor da América, chamava-se “Cavalo Doido”. O missionário morávio Paul Truman que estudava a língua nativa delaware, num diário deixou escrito um episódio lendário ocorrido entre o avô de Tagor, e um janota californiano que viajava pro leste. “Cavalo Doido” entrou na taberna e o maldito western Willian Colt zombou de sua cara. Depois que o índio pediu, tabaco e chá ao taberneiro o californiano teria perguntado se o índio não queria apito também. Todos riram. E o índio desafiou o cawboy para um duelo. Desafio aceito. o punhal foi a arma escolhida. A rua ficou repleta de colonos para ver o embate. Os frequentadores do saloon aproveitaram para uma rodada de apostas. Com uma corda, os dois homens amarram-se ligados pela cintura. Segurando o punhal com uma mão e a corda com a outra, começaram o embate. O punhal do homem branco alcançou o índio abrindo um talho na altura do peito. “Cavalo Doido” fez valer o apelido que tinha, com a corda enlaçou um dos pés do senhor Willian, derrubando. Dominou-o jogou o punhal longe, poupando sua vida. Passou a esmurrá-lo, até pô-lo a nocaute.    
  

O cabelo de metal talvez muito tivesse do sangue dos moicanos. A princípio, de um homem, um ser humano normal. Embora o rosto parecesse de borracha sintética, quando falava a boca não se movia pra sair os sons da voz. Os fonemas no entanto saiam perfeitos, fluentes, e eram entendidos em qualquer língua nativa. Usava óculos de lentes e hastes escuras, muito na moda nos anos quarenta. De terno e gravata. Tagor, sustentava que talvez aquele não possuísse um coração, não dizia isso no sentido figurado. Mas coração órgão mesmo com artérias, vasos e veias cheias de sangue fluindo, como nós simples mortais temos. 


Os olhos de Antonieta eram azuis, ainda mais azuis ali, dentro da boate Azul. Tão belíssima imagem de mulher quase nua, a banhar os pés numa piscina de muita luz. Na mão alva de dedos longos e unhas pintadas, uma taça de uma bebida adocicada, com cheiro de fruta cultivada em solo de Cisjordânia. Licor de damasco. Um pequeno fruto boiando no líquido diluindo-se em vermelho.  Um corpo nu, o que a mente do homem via, ou pelo menos era o que mais queria ver. Apesar de estar calmamente sentada, ele conseguia vê-la andando na passarela. O som da música muito alto, a mente entorpecida pelos fluídos de etanol, mesmo assim conseguia fantasiar o toque dos saltos altos dos mimosos sapatos de Antonieta. O coração acompanhando o pêndulo e o ponteiro do relógio pendurado na penumbra. Marcando ritmo com o bico do salto, no polido piso marmóreo que refletia suas coxas bem torneadas.

Numa praia de Malibu, imaginou-se os dois. As palhas do coqueiro abanavam um sopro caliente, de sol e candura, dourando a pele. A deixá-la ainda mais sedutora, mais mulher. Tagor desejou-a, profundamente. No seu coração desejou aquela fêmea. Não sabia quando veriam se de novo. Aproveitar o momento favorecido pelos deuses numa viagem perfeita, própria deles. Cavalgante no lombo de Pegásus. Como primícias dos céus para um mortal. Uma vez a cada virada de estação do ano tinha direito a um encontro daqueles, e era outono. Sonhou tanto com aquele beijo. A excitação, os corpos exacerbado em formas. Os másculos inflados de desejo, virilidade aflorada. Feito mustang afoito dominou a fêmea, e a possuiu. O beijo levou-o as estrelas, ao cosmo, a profundidade do infinito. Fazer amor com Antonieta era momento indizível. De provocar desejos aos deuses do Olimpo. Afrodite sobre seu divã arrepiava-se,  mordia o lábio de inveja. Eros aventurava-se descer dos seus átrios vindo pousar na terra, sobre o corpo nu de Antonieta. A acariciar suas carne em brasa. Seu sexo se abrindo em flor exalando cheiro inebriante. Se despetalando pro varão, loucamente viril. A explodir em gozo, enchendo a via láctea de outros milhões de espermatozoides, brilhosamente ofuscantes. Universo, de milhares de centelhas de vida. Para depois mansamente no colo de Vênus se lançarem, languidos. As estátuas no palácio do Cassino de Caesar permaneceram todas caladas. Continuaram olhando, porém nada diziam. Não interferiam, porque não queriam. Embora morressem de desejo. 


Tagor Fashall menino de muitas nações e povos. Sem precisar encarnar em outros seres, muito menos sendo highlander. Sendo eternamente ele mesmo. Simplesmente nascia onde quisesse. Em vários lugares ao mesmo tempo, ou em tempos diferentes. Nas suas aventuras ia, buscava suas origens verdadeiras. Isso incluía estar em lugares diferentes, em épocas diferentes. Em quintas e últimas dimensões, vivendo, não outras vidas, mas a mesma em espaços de tempo distintos. Conhecendo outros meninos de suas várias infâncias. Tendo outros inimigos que os levava a outros crimes. E a buscar incansavelmente a justiça. Outras Antonietas de suas juventudes. E sua irmã não saía da cabeça. Onde estaria Júlia agora?


Fabio Campos 07 de janeiro de 2017.

P.S. A Gravura é de autoria do próprio autor usada em outra publicação aqui mesmo neste blog.

Outono de Tagor (19º Epísódio da Saga de T. F.)


O delegado, metido num velho blusão de couro, do qual nunca se livrava. Ninguém jamais o viu sem ele. O chapéu caqui, os óculos ray-ban. Enquanto aguardava pra ser interrogada, Elisa, analisava aquele rosto empapado. Associou-o ao de um personagem do filme “Conan - O Bárbaro”. Talvez aquele malévolo, que se transformava em cobra durante uma orgia. O policial assistente, de pé, ao lado do birô. Com ar de desprezo olhava para os que ali se encontravam. Como sentisse que merecedor não era de ter que viver tudo aquilo. Voltar pra casa era o que mais queria. E o que mais fazia era planos, de ir ao mercado do bairro, compraria ração pro cachorro, cervejas, pilhas pro barbeador portátil. Sempre esquecia alguns compromissos não tão imprescindíveis assim. Trocar a lâmpada queimada do abajur, comprar cotonetes e lenços na farmácia, colocar os sacos de lixo pra fora. Tentaria lembrar-se de não podar muito o pé de Cássia do jardim. A mulher o odiaria por isso. E que geralmente ia pra lista dos itens “sempre esquecidos, sempre adiados”. Detestava, mas infelizmente, outra vez, levaria trabalho pra casa. O maldito caso da menina desaparecida intrigava-o. Levaria aquele caso na mente o resto do dia, da semana, enfim martelaria no pensamento. Era um jogo de quebra-cabeça, onde as peças não se encaixavam. Faltavam algumas, sobravam outras.
      
O terceiro menino da bicicleta, naquela manhã entrou correndo em casa, vindo avisar que a sua vó estava no meio da sala estirada, e que sua irmã desparecera. Ainda eram nove horas da manhã daquela quarta-feira, muito cinza, quando isso acontecera. O dia amanhecera nada normal. E infelizmente acontecera. Os outros amigos dos meninos estavam jogando bola no campinho, e nada viram de anormal. A não ser um carro de luxo que ao entrar no subúrbio chamava sempre a atenção. Parou na esquina e ficou um tempão lá, sem que ninguém saísse de dentro. Um grupo de meninos que assistia a pelada ficou observando. Sentado na linha lateral do campo. Olhavam pro jogo, olhavam por carro. Os que jogavam também, entre uma jogada e outra olhavam. Um senhor idoso passou a caminho da quitanda, um dos rapazes lá da esquina pediu-lhe que lhes desse algum trocado. A intensão era comprar um frasco de cola de sapateiro para se drogar. O velho, irritado com a abordagem esquivou-se. Foi derrubado, um dos garotos meteu a mão em seus bolsos à cata do dinheiro que achava que havia nele. Mas só encontraram um canivete, um molho de chaves, uma carteira que só tinha cartões de apresentação de mototáxis e disk-quentinhas, uns talões da companhia de energia e da água não quitados, a carteira que dava-lhe direito, como idoso, de andar nos coletivos gratuitamente, um pente ensebado, sujo.

Esmurraram lhe perguntando onde escondera o dinheiro, ele nada disse. Apenas esbravejou, tentando levantar-se. O sangue do seu lábio estourado vermelhou um pouco da poeira da estrada de terreno baldio. Dona Esmeraldina não sabia explicar direito o que acontecera estava muito confusa. Só lembrava nitidamente de estar sentada na cadeira da máquina de costura quando foi arrastada com muita força. A brutalidade do seu agressor fora tanta, que ela perdeu o equilíbrio, foi ao chão. A dor persistia na região pélvica. Ela dizia que era dor subindo do ‘vazio’ pra responder na espinha, que era como ela chamava a coluna vertebral e o baixo ventre. Levou coronhada de revólver e ficou passando a mão no calombo na cabeça de cabelos branquinho. Achava que era suficiente o que falara.

A morte já havia visitado praticamente todas as casas daquela rua. Começando pelo dono da loja de carros. Nunca na vida ele tinha vendido um carro como no dia que Felix Anderson foi a sua loja. Disse: “Eu quero aquele carro”. E como demoraram a atendê-lo simplesmente entrou num que estava na vitrine estourou a vidraça da loja, e foi se embora guiando seu mais novo e único automóvel, jamais adquirido na vida. Um talão de cheques inteiro no valor das prestações deixou assinado no birô da concessionária, e foi-se embora. Os cheques nunca seriam compensados, não tinha fundos. E dona Júlia, quase quarenta anos depois diria: “Como eu queria ter um carro daqueles. Antes que venha à morte.” Tagor disse-lhe que mais do que um carro, melhor era andar a cavalo. Viajar de carruagem, atravessar o mar de navio, sangrar as nuvens de dirigível. Justo ele, que já havia feito viagens em todos aqueles transportes. Dona Júlia disse que quando casara foi da igreja pra casa à cavalo. Mas não podia desviar do foco. Sua irmã havia desaparecido e a vila de Étole Chavalier estava afundando. Como assim afundando? Isso mesmo, uma equipe de agrimensores contratados pelo condado. Com seus teodolitos e varas milimetradas puseram-se a fazer medidas até conseguirem as provas. Do alto do morro mais alto do entorno da vila dava pra perceber, algumas montanhas nunca antes vistas daquele ponto agora estavam visíveis porque outras elevações baixaram de altitude. O governo teria que tentar reverter a situação. Enfim saber o que estava acontecendo pelo menos. Do jeito que estava não dava pra continuar. A vila inteira iria desaparecer, caso se confirmasse aquela teoria. E ainda mais as profecias de um louco que atendia pelo nome de “Candeeiro” que apregoava em praça pública que a vila estava afundando por castigo, pelos pecados dos aldeões, pelas falcatruas do prefeito, pelas sevícias das mulheres mundanas, dos ladrões e viciados em jogo e pelo uso de drogas. E anunciava em tom profético: “Arrependei-vos! Bando de serpentes! O fim está próximo!” Lembrava em tudo o batista bíblico.

O policial, dentro da viatura. Encontrou Tagor quando ia pro subúrbio, parou, desceu. Ficaram conversando. Disse que tinha saudade do tempo em que era jovem, que estudara na escola de freiras. Falou dos amigos de infância, e que alguns não alcançaram futuro promissor. Lembrava com carinho de cada um deles. João, o filho do pintor, era excelente jogador de futebol, mas não sabia que fim levou. Wilson, tornara-se policial como ele, mas teve diabetes aos quarenta. Não se cuidou. Nem um tipo de dieta, teve gangrena, morrera recentemente. Manuel havia, a cinco anos, num final de ano como aquele, ligado pra ele, desejou feliz natal, feliz ano novo. Pela voz deu pra perceber o quanto estava bêbado, mas também muito emocionado. Apostaria que ao desligar teria chorado. E não mais tornou a ligar. Lamentava pelos que não absolveram os ensinamentos mais úteis de seus professores. E não sabia dizer exatamente, como conseguira chegar a ser policial. Considerava-se um homem de paz, e na profissão errada, talvez. Sabia que os dias de caserna estavam contados, em breve iria pra reserva. Ultimamente sonhava todos os dias com a aposentadoria. Os dias violentos, traumatizantes, quando era jovem e afoito ficariam somente na lembrança. Não se orgulhava muito do que muitas vezes tivera que fazer. Bater, bater, agredir, prender, bater. O delegado com os lábios, fazia um bico de preocupado. Assim fazia toda vez que era obrigado a pensar. Quando estava jogando baralho, principalmente quando estava perdendo, fazia aquela cara. Por detrás dos óculos ninguém sabia o que seus olhos diziam.


Tagor descobrira um invento interessante. Depois de alguns dias fabricando-o, nos porões do seu laboratório na rua do Candelabro subúrbio de Étole Chavalier, eis que ficou pronto. A princípio concebera-o como um aparelho de refrigeração portátil. Devia servir para baixar a temperatura do corpo. Nos dias de calor intenso de verão. Uma espécie de dínamo em miniatura, com uma pequena reserva de gás que cabia acoplado ao chapéu. Ao ser acionado criaria um campo de ar refrigerado entorno de quem o estivesse usando. O dispositivo também teria a opção vapor quente, para o rigoroso inverno francês. Pra se testar a eficiência da geringonça teria que esperar alguns meses. Nada, no entanto, impedia de ver como funcionaria ainda que fosse outono. Ao usá-lo Tagor faria uma descoberta incrível. O dispositivo deixava-o com o poder da invisibilidade. Ao passar em frente a barbearia simplesmente não conseguiu ver sua imagem refletida na vidraça. Os transeuntes não davam conta da sua presença. Mas toda as células, moléculas, átomos, sangue e órgãos do corpo permaneciam no mesmo estado de matéria. De modo que logo descobriria isso, ao colidir com um dos meninos da bicicleta. O menino ficou estupefato ao perceber que batera num obstáculo invisível. Pior, algo que além de não ver, soltara um palavrão.

O que importava no momento era saber onde estava sua mãe. Outra vez veio-lhe o rosto de sua tia entrando na delegacia, para contar ao delegado o ocorrido. E ele ali, apenas um menino frágil, olhos arregalados, indefeso.

Fabio Campos, 02 de janeiro de 2017. 

P.S. Gravura que ilustra este episódio, encontrada aleatoriamente na internet. Autor: desconhecido.

Liberta! Libertá! (18º Episódio de T. Fashall)

O homem, de chapéu engraçado, de três pontas. Botas canos longos, o cinto largo guarnecido duma espada embainhada. De fraque, com duas pontas nos fundilhos, era Tagor Fashall. A barba morena, o brinco na orelha direita. Buscou o que havia a sua volta. Muito queria entender o que se passava no seu entorno. Perdera a noção de onde se encontrava, naquele exato momento. Talvez de volta a França, do século dezoito. As carruagens, as carroças, as mulheres com suas saias longas, de tecido alvo, os chapéus de pano, a torná-las imensamente belas, indubitavelmente sérias, indiscutivelmente fêmeas. Ruma de cabritos com seus incômodos testículos gigantes. Com dificuldade avançavam, puxados por cordas, pra serem vendidos no mercado. Patos, marrecos, porcos, junto com pessoas transitavam pelas estradas, nas ladeiras e ruelas de Étole Chavalier.

Da onde estava dava pra ver o frontispício do mercado, o formigueiro de gente. No alto da ladeira. A bandeira de França, tremulando no alto do mastro, à porta da Cadeia Publica. Um relance pra direita, num olhar e a torre da catedral. Depois do jardim de pinheirais ficava o Manicômio judiciário, o Instituto Médico Legal e o Cemitério de São Judas Tadeu, só que a imagem lá colocada era de Judas Escariotes. Pictórica cena, tantas vezes reproduzidas nas telas dos disciplinados estudantes de belas artes, da famosa Casa das Artes de Paris, que com vigor se aventuravam na árdua, porem prazerosa, tarefa de retratar o cotidiano.  
    
Uma casa amarela de esquina, ali funcionava o mais conhecido bordel da vila. Rosas tristes na sacada debulhavam seus botões, entre melodias vulgares, regadas a vinho tinto safra 1830. Vicente e Marcelo eram filhos de Seu Antônio, desde pequenos, até virarem homens feitos foram levados pra casa de prostituição. O velho pai era dono de uma fábrica de queijos, feitos com leite de cabra, que muito dinheiro rendia-lhes. A bebedeira, a jogatina, a vida mundana já se tornara um vício. Os filhos se criaram aprendendo do próprio pai a vida desregrada que levava. Vicente e Marcelo acabaram apaixonando-se por uma prostituta, chamada Rosalice. O amor possessivo falou mais alto, e decidiram disputá-la num duelo de esgrima. O embate entre os dois irmãos ocorreria às cinco horas daquela tarde, no parque dos Marrecos, região do subúrbio de Paris. O jardim dos marrecos era lugar aprazível, bom para morrer. Ideal pra uma cena de amor, miseravelmente trágico, dramaticamente violento. Os amantes que a tantas orgias haviam já se entregado. Amavam-se a três, em volúpias e frenesis sexuais. Agora, porém, cada um queria da dama da noite exclusividade. Já não aceitavam dividir a flor do delírio, o sedutor sexo de Rosalice entre três, não mais fazia sentido. Não mais queriam compartilhar pra dois o que podia ser só de um. Foram pontuais, ao compromisso, o juiz, as testemunhas, os potenciais fraticidas. Matariam sem culpa, somente por amor. Incondicional amor, inconcebível amor, brutal amor, que mata. O palco do embate, um imenso charco, considerado mal assombrado. Um velho mosteiro de janelas triste, onde um dia um missionário enforcara-se pendurando-se no batente de madeira, olhava pra lá. Saltou ao encontro da morte. Ó fria, cruel e implacável morte! Agora passeava e ciceroneava outros espíritos, os que quisessem conhecer o parque. Tinha a vida inteira pra isso, melhor dizendo, a morte inteira. Todos que sabiam da história quando olhavam pra lá, mesmo não tendo presenciado a cena viam. Qualquer que olhasse conseguia ver, o frade pendurado, cabeça pendida pra frente, os braços estendidos, as sandálias andando no nada. Na imensa janela. Aquele corpo balouçando ao vento, mesmo não estando mais lá, um recado deixava aos viventes: morrer causava imensa angústia.

Tagor agora, estava com sua mãe. Andaram pelo paço. Conversavam conversa de mãe e filho. Entraram na catedral. A igreja abriu seus longos braços a abraçá-los. Dois, dos meninos das bicicletas estavam com ele. Os meninos os acompanhavam, só que em outra dimensão. O terceiro não estava, porque era ele próprio. Sua mãe dirigiu-se pro altar. Movia-se calmamente, suavemente, como que deslizando, como se não tocasse o chão. Barulho nenhum se escutava. A não ser dos pardais que chilreava nos galhos dos arbustos. A fitarem de lá fora, os fiéis, os santos, os anjos e os espíritos maus, dentro da nave.  De onde estava Tagor, fitou os órgãos com seus imensos tubos de ferro, aço e madeira, feito pelotões. Disposto, dependendo da hierarquia. E do valor que tinham de cima para baixo. 

Aproximavam-se os dias das festas de natal. Uma lapinha esmeradamente montada ao lado do altar-mor. Entre o púlpito e o confessionário. Pedras de verdade foram dispostas a dar ideia duma imensa gruta. Um manancial de água em miniatura, vertendo água azul espumosa, dançante, em córrego de faz de conta. Estatuetas bem trabalhadas, representando um pastoreio, ovelhas, cabras e cabritos. Uma madona ao centro com olhar angelical, ladeada de um José, calmo, resignadamente sereno nas feições. Os três magos com seus presentes na mão. Um menino de colo com ar de majestade, sem parecer ser. Muito embora, como que aceitasse ser amplamente adorado por todos: vivos, não vivos, espíritos bons, espíritos maus, gente, não gente. Não importava se encima, embaixo, ou por sobre a terra, todos o adoravam.

Tagor inquieto, embora não se sentisse, mesmo assim estava. Era da sua natureza, do seu espírito aventureiro. Ainda que num ambiente de tanta paz. Pensante, caminhou até a parte alta da nave. Deu-se conta e já havia escalado os andares, chegando à parte superior. Sua mãe agora era um ponto branco de joelho, lá embaixo, no altar, tão estática quanto o Cristo pendido no madeiro, como se merecesse estar lá, para sempre. Pagando pelos pecados dos mortais. Adornado a todo instante pelas ave-marias. Debulhadas nas contas do rosário, de ave-marias de dona Maria do Rosário. Rosário encaliçado, sofrido, ensebado, suado. Sabendo quão demorada seriam as rezas da mãe, o filho vagou pelo interior do templo. Mais um pouco e alcançou a torre. Lembrou-se da última, e única vez, que estivera ali. Era criança, ainda. Devia ter seus seis anos de idade. Quanto tempo se passara. Tanto medo tinha, e segurava com tanta força a mão do pai, que chegava a doer. E o pai sorria, percebendo o temor do menino pedia que se acalmasse. Por uma pequena janela via a vila de Étole Chavalier, de um ângulo nunca antes visto. Do alto. E os aldeões todos não passavam de formigas, nas suas ínfimas vidas. Seu Manoel por certo estaria lá, preocupado com os afazeres do açougue, Seu Expedito tão ocupado com a taberna. Via a si mesmo indo pra casa, ainda menino. As moças de volta da aula de música, diáfanas, libelulavam pelo caminho das rosas. Do alto tudo parecia tão pequeno. Sem nunca avançar o tempo. Tão imensamente descomplicado. Olhar do alto, tornava tudo tão cheio de outros sentidos, outros significados. Na verdade tomavam outra dimensão.
 
De repente Tagor sentiu-se sendo empurrado, não sabendo ao certo se por alguém, se por um vento mais forte que entrara pela janelinha da torre. Só soube que o empurrão fizera perder o equilíbrio. Só sabia que debaixo dos pés, o chão faltara. Sem saber como, nem porque o piso desaparecera de debaixo dos pés.  E eis que agora despencava dentro dum calabouço. Uma espécie de alçapão o levara a tal situação. Sem que desejasse fora encontrar-se dentro dum cubículo de metro e meio de cumprimento, por dois  e meio de largura, e altura. Olhando pro alto dava pra ver os caibros e telhas da torre da igreja. Parecendo a princípio, de inacessível acesso. Tagor tocou o chão, percebeu-o de pedra maciça. Impossível pensar em sair por ali. As paredes rígidas construídas igualmente de blocos de granito. Apenas o teto parecia vulnerável, com suas telhas de cerâmica e caibros de madeira. Teve quase certeza de que, no teto se encontrava sua única esperança de sair daquela tão inusitada prisão. Em vão tentou ficar calmo, pensou com sua espada poderia ferir a pedra. Mas levaria anos para conseguir transpor aqueles músculos de granito, aquela tão rígidas carnes de mármore. 

Pensou em Antonieta, onde estaria agora? Lembrou-se de cada um dos seus amigos. Pensou nos filhos que um dia teria com Antonieta. Nos amigos das bicicletas. Quanto tempo ficaria ali. Uma eternidade se preciso fosse. E tempo teria pra lembrar da vida que levara até então. E se sentisse fome? E se ficasse com sede? Entrou em pânico. Começou a gritar por sua mãe. Dizendo exatamente a palavra: “mãe!” não chamava pelo nome, mas mãe. E batia com força contra o piso. E tinha certeza que a mãe, lá no altar, rezando o escutava. E o tinha como em seu ventre. Certeza tinha disso. A mãe porém, se o escutava não parecia, rezava apenas. Daí a pouco lembrou-se que todo o oxigênio daquele ínfimo ambiente estava por ele sendo consumido. Não demoraria e morreria por asfixia. De repente, Tagor viu. Viu e também ouviu, as telhas da torre sendo destruídas. Garras de uma águia gigante as destruíam.

Era dezoito horas, Marcelo e Vicente já à uma hora lutavam. O sol derramou seu sangue por entre os pomares, por entre os carvalhos, os ciprestes, o musgo rastejante, feito cobra astuta, víbora esgrimista. A tarde literalmente ensanguentada via dois irmãos, digladiando-se, em ódio, por amor devotado a uma prostituta. Os fios de espada arrancando sons metálicos que enfeitavam o ocaso, estupefato de torpor e tragicidade. Lutando e lutando escalaram as ruínas do cemitério, da família de Bastilha. As lápides sorriam, que vã não seria a ira, sabiam. Os dois na mesma escuderia estudaram esgrima, do mesmo mestre aprenderam. Um não sabia mais que o outro. O ódio clamava por um vencedor, por sangue clamava. Haveria de ter um derrotado. Um desvio de olhar, um vacilo seria o suficiente. A ocasião faria o vencedor, e fez. Marcelo, num esquivo mal dado de Vicente, no peito esquerdo cravou-lhe o florete de prata, serpentinando em sangue.


Fabio Campos, 10 de Dezembro de 2016. 

A Hidra de Luanda (17º Episódio de T. Fashall)

O rio secou. Os olhos d’água secaram. Os olhos de Odiba também secaram. Duas lágrimas sulcaram dois rastros no seu rosto empoeirado. A pele de tálamo ressequida, amorenada. Os braços criaram uma crosta de pó ceramizado, luzidio. Duma cor persistente que ia em todo canto, nas paredes da casa. No terreiro de casa, de mesma tonalidade também a cerquinha do chiqueiro. Lá acolá, calado, que nem porcos tinha mais. Estavam todos mortos. Morreram de fome. O pote de barro, a única coisa gorda naquelas redondezas, ainda que oco, reluzia sua barriga avantajada. O tecido da saia de Amérida, das poucas coisas que ainda tinha alegria por ali. Os meninos homens sabiam de histórias e causos antigos. De seus antepassados, e que tanto prazer tinham em contar. Especialmente aos pequenos, para que levassem a diante suas raízes, suas tradições, seus costumes, suas origens. E nunca sonharam possuir bicicletas, simplesmente porque jamais tinham visto uma.

Zanzi-bar caiada, a refletir pureza nos seus palácios. Nas palmeiras que escalavam escadarias, peitoril de casas e fachadas. O mercado das especiarias. Todos ali, sabiam de um mundo subterrâneo. Por onde ratos e cobras humanas sobreviviam, e negociavam vidas. Negociavam ouro, drogas, marfim, animais exóticos, e gente. Comprar e vender negros, era comércio rentável. Negro mercado, mercado negro de esgotos fétidos. Rua dos porcos. Os curtumes a céu aberto. A atraírem urubus pros altos telhados dos sobrados. O bate bate das peças de couro nas pranchas encardidas. Um demônio chamado Delirium ficou olhando pra baixo, mirando um mortal dentro da sala. Do beiral de outra casa em frente olhava. O homem sentado à mesa lançou impropérios contra aquele, sem sequer o visse. Sem mesmo saber que o deletério, gosmento lá estivesse. Assim que tocou no livro sagrado, o demônio fez menção de alçar voo, mas suas patas asquerosas, com garras de abutre, resvalaram nas telhas do beiral, lançando fora algumas delas. Uma dúzia de telhas foi se espatifar na calçada. As palavras, feito setas certeiras acudiu o homem de terno. O chapéu continuava no cabide. A mulher admirou-se da cena. E adivinhando o que acabara de suceder, comentou que as palavras santas com seu poder acabara de os salvar. Nem sequer foram proclamadas, apenas expostas ao ser ignóbil e espantou-o pra longe deles.

Tagor estava sentado a uma mesa. Era mesa grande feita do tronco serrado ao meio. Um caule de embodeiro planta nativa da África. Mesa larga, de lastro grosso, rústica, como tudo naquele lugar distante. A ilha africana habitava homens, espíritos e cenas belíssimas, como as mulheres que praticamente ninguém via.  A mesa de madeira nativa, liberava junto com a lignina, um odor bastante aromático. Sedutor como aquela tarde a beira mar. Um copo de vidro, passado de vinho tinto. Ainda mais inebriante, com seu perfume acre doce seduzindo os rostos, as sombras, os quintais. Um brinde a vida, a saúde, e as amizades. Cesar com seus olhos de pedra olhou pro céu, pintando ainda mais tudo de azul. E disse que todos ali, precisavam saber duma história que acontecera com ele, da última vez que ia a caminho de Luanda. O chapéu de tala branca resolveu tirar da cabeça, e os longos fios de cabelo negro ficaram colados no suor da testa alva. Deu-lhe aparência da imagem de uma estátua da deusa hidra que havia no palácio do reino dos macacos.

A mãe de Tagor estava lá longe, sentada numa cadeira de vime. Debaixo dum coqueiro baixo, olhava em direção ao mar. Tinha nas mãos uma espécie de novelo de pano de linho branco, coberto de inscrições feitas com linha preta. A cadeira forrada com uma almofada recheada de algodão. Coberta com um tecido decorado com desenhos de plantas de folhas largas e grandes,  uma cabeça de arara vermelha no respaldo. Tudo aquilo fazia a festa da tarde de sol. A planta do desenho era uma “Welwisschia mirabilis” que só existe no deserto do Namibe, em Angola. É planta rasteira, de caule lenhoso que não cresce. Possui raiz enorme e duas folhas em forma de canoas compridas. Com o tempo as folhas podem atingir dois metros de comprimento, e se esfarrapam nas extremidades, dando ideia de tentáculos. De incrível longevidade. Tinha delas, que conseguiam viver mil anos de vida. Tagor tinha esperança de um dia descobrir como conseguiam sobreviver tanto tempo num ambiente tão hostil como o deserto. E a água de que necessitavam como conseguiam? Isso era um segredo que não demoraria muito a descobrir.

Cesar passou a contar a aventura que vivera, na estrada que um dia o levaria a conhecer Dacar. No meio do deserto de Namibe ocorreu, no terceiro dia de jornada, uma tempestade de areia. Um dia e meio tiveram que ficar debaixo das lonas, esperando a tempestade passar. Quando veio a calmaria o deserto havia se transformado, totalmente. Onde antes só areia havia, uma planta estranha aflorara por toda parte, a hidra de Luanda. Nunca ninguém tinha visto nada igual. O deserto agora aqui e acolá recoberto de uma planta que possuía duas grandes folhas apenas. Plantas que encerrava uma terrível maldição. Os camelos que se aventuraram comer dela, morreram de morte esquisita. Ao simples toque na erva maldita e caiam desfalecidos espumando até darem o último suspiro. A carne escurecia, apodrecia e se consumia em questão de segundos. Só o esqueleto do quadrúpede de casco bipartido restara. Atestando o efeito maléfico do maldito vegetal, surgido das entranhas do deserto. Os tuaregues da caravana de Cesar entenderam que a planta altamente venenosa devia ser evitada. Algo ainda mais terrível estava para descobrir. Ao cair da noite sob o vento frio um escravo da caravana levantou-se para aliviar a bexiga. Ao afastar-se do acampamento foi ao encontro de uma daquelas plantas maldita. Gritos aterrorizantes foram ouvidos naquela madrugada. A hidra como que dotada de inteligência com seus tentáculos agarrara o pobre negro e devorava-o vivo. A cada ponto que as farpas das pontas das folhas tocavam a carne se diluía. Feito ácido corrosivo a seiva consumia as carnes do pobre homem até transformá-lo num esqueleto, totalmente.

Odiba e Amérida sobreviveram àquela viagem de travessia do deserto. Tagor voltaria lá, exclusivamente para pesquisar aquela planta carnívora. Antonieta passou o mês de maio na companhia de João, Marcos e Lucas. Ocuparam a casa do vale de Omino no Sudão. Antonieta de tanta preocupação adoeceu. Caiu de cama, teve febre e alucinações. Teve que ser levada ao campo de concentração dos soldados ianques. Os que combatiam contra os radjistas. Para os quais aquela tratava-se duma guerra santa. mulçumanos contra católicos. Os boinas verdes odiavam este tipo de ideologia. Lutavam por outro ideal, morreriam se preciso fosse, em defesa de outra causa, o maldito patriotismo. Antonieta tomou remédio americano. E teve visões e alucinações. Sentada na maca do hospital viu Tagor avançando no deserto montado num cavalo de fogo. A espada sibilando no ar. O rosto crispado, a boca aberta, os dentes a mostra. De repente areia começou a flutuar, e era como cristais brilhante, como puro ouro em pó, a soar como milhares de sininhos. Num som muito bom de ser ouvido. E agora com seus lindos seios amamentava João que dormia no seu colo. Alisava seus cabelos. Figos e damascos desenhados num tapete pendurado na parede, de repente começaram a sair da estampa e se materializavam e avançaram em sua direção. E mesmo sem comê-los, sentia-os tão saborosos.

Senhor John e senhora Clarice ainda estavam na sala. Pra ela, era difícil, nem um pouco fácil assim, acreditar que simples sinais de pele, tanto poder exerciam sobre as criaturas. Sinais seriam na verdade, decodificadores, espécies de senhas que abriam caminhos pra que mensagens vindas do espaço pudessem ser decifradas. Civilizações distantes os possuíam. Lá no cosmo, onde civilizações intergalácticas habitavam sinais eram elementos identificadores de seres semelhantes a nós. Tagor, na sua terceira viagem ao planeta vermelho. Ao aportar, foi reconhecido por um sinal, que tinha na parte interna do lóbulo da orelha direita. Foi o que o salvou, pois o príncipe Godar, da nação marciana semelhante sinal possuía.


Fabio Campos, 04 de Dezembro de 2016.


P.S. A Gravura que ilustra este episódio, é um flagrante captado com câmara fotográfica, numa loja do shopping center de Arapiraca.