NA CAVERNA DOS MORTOS (24º Episódio de T.F.)

O que se descortinava eram telhados. Um coqueiro lá acola. Dum quintal acenava pros saguis, que saltitantes iam por cima das casas. Araras empoleiradas, de exuberância em penas, as varandas das cozinhas A disputarem qual mais bela nuança com as estampas das roupas coloridas estendidas nos varais. E tudo era tão sincero, assim feito falas feitas em casa de vó. Cena tão americanamente tropical. Algazarra de meninos brincando, descobrindo os macaquinhos. Sol macio, amornando as coisas, entusiasmos. Afagando os muros, valorando as pinturas, as caiações, os desenhos floridos de tanto esmero, e talento dispensados. Os céus, de ventos que anunciavam nuvens, redemoinho de poeira, mas não chuva. As pessoas, zoarentas circulavam no meio da feira. Dentre eles Tagor, que precisaria vender um de seus pertences pra comprar algum suprimento. Foi à feira do rato, pra onde vendilhões de quinquilharias se dirigiam a comercializarem objetos de toda sorte. Uma antiga lamparina coberta de limo, no meio de outras peças esquecida. Chegou trazendo recordações. Candeeiro da cor de escuro. Alumiou, lembranças negras.  

O cheiro de terra veio vindo, trazendo esperanças e lembranças de dias muito velhos. Dias de tão lá trás, que acabaram cristalizados, na paisagem da estrada do tempo. O único carro daquele tempo ganhou estrada que era só sua. Uma estrada inteira, feita pra um único carro andar. E no seu percurso solitário a criar histórias. De encontrar pessoas solitárias, caminhantes. Amanacy e Aracy caminhando iam pela grande vereda que os homens construíram pras geringonças que roncavam, andar em cima. A filha de Amanacy ganhara dianteira. Ao ouvir, o ronco do automóvel de Delmiro Gouveia, parou a esperar a mãe. Os cabelos falavam com o vento. Do quão era bom tomar banho de açude falavam. Ganhar cheiro de sabão da terra, água boa de lavar cabelos, de lavar corpos, e abrandar os medos que ameaçavam a alma. Aracy na cabeça, uma trouxa feita de uma peça de cobertor branco, amarrado num nó feito com as quatro pontas. Encerrado ali, ia uma jarra de louça. Uma lata redonda com tampa, cheia de farinha de mandioca. Também uma rapadura, uns pedaços de carne assada. Um embornal de vísceras de veado, abastecido de água friinha de dar gosto. O chofer deu breque no monstro que roncava, bem ao lado das duas criaturas, indefesamente surpresas. Depois dum cumprimento, a carona oferecida. Às duas mulheres, de bom grado aceitaram. O destino, os mesmos não eram. Na metade do trajeto ficariam. Mãe e filha indo estavam pro Sítio Umburana Doce. Pra casa de comadre Maria Virgínia, que tivera mais um filho. O décimo segundo na contagem total, o oitavo varão.  Assistir-lhe-ia na convalescença, no resguardo. Era sempre assim, todo ano. Uma, a cada resguardo, assistia a outra. A paisagem deixou de ser ameaça, de vida e morte, passou a ser vista sedutora. Boa pra deitar os olhos quase cerrados, no mundão de mata e plantações. E correr a amamentar os sonhos. Ver crescer, até que ficassem fortes, robustos, preparados. E caíssem na lapa do mundo, sem dó, nem pena. A se aventurarem com gosto, como quem coloca farelo pra porco, milho pras galinhas. Amanacy mais jeito tinha pra criar galinha e porco, do que gente. E preferia mil vezes cuidar duma tarefa de roça de feijão e milho verde, do que suplantar arado de carretel, linha e agulha na máquina de fiar.   
  
Morua-ru-ani o índio do cavalo negro, se havia sentado no alpendre da casa de dona Virgínia, dali a pouco a tarde viria se despedir, dos seus olhos repuxados. Manancy quis saber o que o irmão de pele buscava ali. Viera à procura de sua descendência. Era um remanescente dos Yaganos. Da antiga tribo de índios da Terra do Fogo. Tinha esperança de um dia encontrar seus irmãos. Buscava onde fora parar os seiscentos nativos Yaganos, da Terra do Fogo. Os bravos guerreiros que ao tentar enfrentar o cão de Vanuatu, na Vila Ushuaia tragados que foram pelo hálito do feroz canino. Morua-ru-ani contou toda a história, a mesma contada de geração a geração pelos seus avós. O extraordinário desaparecimento marcara para sempre a história deles. Foi como se a terra tivesse engolido os bravos guerreiros. O mais incrível era que tudo tinha uma explicação de ser. Era no vaso da Catarina que Morua-ru-ani poderia encontrar o segredo do grande mistério do desaparecimento dos guerreiros de seu povo. O índio sentia, estava a um passo de ser desvendado o misterioso fato. Contava claro, com seu amigo Tagor que se dispusera a ajuda-lo. Também um bando de ciganos que estavam arranchados nas imediações.

Os aldeões estavam numa comoção só. Estavam decididos, se organizariam para destruir Vectro. Foi consternador ver a vila inteira, ir enterrar seus mortos. E juraram vingança. Havia entre eles, um, chamado Bento Benzedor. Era o conselheiro da vila a quem os camponeses sempre recorriam pra resolver contendas, os litígios, e situações semelhantes aquela. Foram exatas, trezentas pessoas, mortas. Trezentas vidas ceifadas. Entre homens, mulheres e crianças. Dizimadas por um único golpe do maligno Vectro. Houve um cerimonial de entrega das vidas dos que iam combater, e pedido de sorte a Deus. Precisariam de muita sorte, para o que iriam fazer. Os homens da aldeia eram cerca de mil. Porem não se podia contar com todos. Entre eles haviam velhos e doentes. Mais de duzentos, dentre eles não tinham forças para combater. Tagor e o índio passaram duas semanas dando instrução de guerra, treinando os moços da aldeia que iam lutar contra Vectro. Tagor idealizou e a eles contou, qual seria seu plano. Teriam que localizar e atrair Vectro para uma cilada. Propor uma luta, desigual, entre o Transformer e apenas um aldeão, um garoto apenas. Seria como nas Escrituras Sagradas, o episódio do pequeno Davi contra o gigante Golias. O local do embate estrategicamente um desfiladeiro dentro do vaso, e quando o alien estivesse debaixo da armadilha fariam descer sobre ele uma descarga de pedras grandes, toras de madeira. E mais um tacho de azeite quente. Era torcer para que tudo desse certo.

Pra ganhar as garrafinhas contendo água, e terra de Israel, a história que o padre contou a Tagor foi a seguinte. No tempo que padre Sigismundo Alencar esteve à frente da freguesia do Crato e Juazeiro do Norte, no vale do Cariri, no estado do Ceará. Um bando de cangaceiros andava espalhando terror por toda chapada do Araripe. O chefe do bando, um galego cabeludo, por nome de Herculano Novaes, que tinha por apelido Cascavel. Por onde passava um rastro de sangue e destruição deixava. Coronel Marcolino Rodrigues de Miranda, homem rico e poderoso de grande influência política na região. Era pai de Maria Serafina da Soledade, uma menina de seus catorze anos. Numa das investidas do bando de Cascavel, a filha do coronel que estava passando uma temporada na casa da tia, Teodomira Rodrigues, foi raptada pelos cangaceiros. O coronel formou um contingente de jagunços e foram ao encontro do bando. No confronto os bandidos salteadores escaparam ilesos. Enfurecidos, dias depois, atacaram uma das fazendas do coronel, onde fizeram muitas baixas. Levaram armas, suprimentos. Atearam fogo na casa grande. Mataram homens da confiança do coronel. A filha do homem, mantiveram como refém. O coronel ajuntou os varões da família, filhos, sobrinhos e tios da filha. O que tinha de homens, e mais uma volante da polícia, e foi em perseguição aos bandidos. Por meio de informação dum ‘coiteiro’ localizaram os facínoras. Estavam enfurnados numas locas de pedras, conhecido por “Boca das Cobras”, as margens do rio Salgadinho, no sopé da serra da Boa Vista. Estavam encurralados, pois havia uma só saída. Padre Sigismundo, e todo sertão, ficou sabendo que o coronel Marcolino deu um ultimato ao bando, que soltassem sua filha, ou ia invadir o local, e que não ia ficar um só do bando vivo pra contar a história. Resgataria sua filha nem que fosse a nado, num rio de sangue. Os bandidos ameaçaram matar Maria Serafina se isso acontecesse. Padre Sigismundo, a cavalo, imediatamente partiu pro local, para intermediar uma trégua. Se dispôs a ser moeda de troca, e tornar-se refém no lugar da menina.  Cascavel aceitou, mas ao se aproximar, o crucifixo no peito do padre, atingido pelo sol, refletiu um brilho, que o chefe dos cangaceiros pensou ser uma arma de fogo, e atirou. Do nada, apareceu uma cobra jiboia de vinte metros que dum bote engoliu  Cascavel. Isso fez Tagor lembrar a passagem bíblica, em que a cobra do faraó foi engolida pela de Moisés. O padre milagrosamente foi salvo, pelo crucifixo que recebeu o tiro. Atordoados os demais cangaceiros fugiram.

O índio dizia que a história do desaparecimento dos seiscentos homens do seu povo, se fundia com o surgimento de um grupo de ciganos naquela região. Isso data do século doze depois de Cristo. Como explicar tal semelhança, aqueles homens falavam dialeto próprio. Tinham a fama de ladrões e salteadores. Eram fortes no porte físico, e de feições belas. Para ganharem algum dinheiro para seus sustentos se apresentavam nas aldeias com exibições circenses, onde feitos fantásticos realizavam com o uso da força bruta, truques de magias puramente indígenas. Com uma marreta, quebravam pedras enormes colocadas sobre o peito de um deles. Com a força dos cabelos, e das mãos freavam uma parelha de bois de arado, ou apenas com as mãos estancavam o repuxo de quatro cavalos de corrida, dois para cada lado. Mas sempre foram maus vistos pelas sociedades feudais. Havia os que diziam que eles provinham dos espanhóis. Deles, teriam ganhado o apelido de “Gitanos” outros diriam que sua descendência era Árabe, e ainda indianos. Houve quem afirmasse categoricamente que seriam descendentes de Caim, irmão de Abel da estirpe de Cam. A eles também uma antiga lenda hindu atribui-lhes serem os forjadores, ou ladrões, dos pregos da cruz de Cristo. Motivo pelos quais os obrigariam a vagar pelo mundo.

Tagor partiu ao encontro do pai de Joana Antonieta. Encontrou-o dentro de uma caverna escura. Na verdade não era mais ele corpo e alma. Só o espírito. Era noite, e todos os dias era noite pra ele. Não podia sair dali. Simplesmente não conseguia. Andava por intermináveis corredores escuros. Quando ficava cansado parava e acabava dormindo. Procurava um lugar mais ameno. Tendo por cobertor a escuridão. Era uma caverna úmida. Do teto o farfalhar das asas dos morcegos sobrevoando sua cabeça. Embalava seu sono, o chiado das corujas, som  horripilantemente aterrador. Uma goteira que parecia não acabar nunca, explodia dentro da cabeça. De vez em quando ouvia como um choro de uma criança, uma menina. Talvez perdida, dentro de algum túnel, daquela caverna que não tinha fim.  Tagor percebeu que ele não tinha vontade de conversar. Talvez tivesse vergonha do que fizera em vida. Mas se contasse quem sabe não aliviasse o peso da consciência. Quem sabe Antonieta lhe perdoasse. Disse, sem falar palavra. Estava com muito remorso pelo que fizera a Antonieta. Em vida, a abandonara, com a mãe sozinha e doente. Antonieta tinha apenas três anos de idade. A mãe de Antonieta morrendo lentamente consumida pela peste negra, que quase dizimou a Europa. Antonieta sendo levada pra ser criada pela tia no subúrbio de Paris. Antonieta não lembrava nada dessa fase de sua vida. O pai no entanto sim.

Marcos, o primeiro menino das bicicletas, ficou sabendo de Milu, a gata mãe de Derick. Estava num  abrigo para idosos chamado São Vicente de Paula, próximo ao santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, em Santana do Ipanema. Sob a guarda de dona Lourdes, que alimentava e cuidava dos nove velhinhos que lá residiam. Milu queria saber do paradeiro de Derick, de Bola de Gude e Chiclete seus irmãos. A gata ficava o tempo todo no colo de dona Nenen, na verdade dona Gumercinda Rodrigues que dizia ser irmã do coronel Rodrigues da Rocha, e que ficou cega, aos 80 anos, de catarata. Jurava, porém, ter sido obra dum cangaceiro apelidado de Cascavel. Milu era os olhos da cega. Esticava o pescoço se alguém se aproximava. Miava manhosa se vinha gente conhecida, miava ameaçadora se não. Miou, agora mesmo, arregalando os olhos, arrepiando o pelo.


Fabio Campos, 21 de Fevereiro de 2017.

O PADRE E A SERPENTE (23º Episódio de T.F.)


O sol que descia do céu era o de meio dia. Sobre uma pedra de calcário, dois frasquinhos reluziam. O brilho chegava a doer nos olhos de quem se aventurasse encarar. Duas miniaturas de garrafa, ali no meio da aridez do deserto, semelhavam dois olhos da serpente de jade. Uma refletia azul e outra amarelo. Na verdade eram de vidro comum, devido ao conteúdo que encerravam refletiam tais cores. Um homem de meia idade, trajado de árabe se fazia ali. Mais parecia um alquimista. Estava sentado, debaixo dum pé de catingueira que malmente fazia sombra suficiente pra uma pessoa se abrigar. Mesmo assim ele tentava se proteger na ínfima sombra. Umas cabras aqui e acolá catavam, sobre o lajedo, o que comer. Com rapidez incomum, quase nervosismo apreendiam vestígios de vegetais, que seus faros apurados conseguiam detectar. Mastigavam freneticamente seixos, e capim seco. E suas vidas arriscavam tentando alcançar os olhos da catingueira. Único ponto verde no entorno.   

O homem estava como quem esperava. E esperar pra quem estar debaixo do sol quente, num sertão brabo não é nada animador. Aliás é até mesmo desesperador, de dar nos nervos. Sabia ele, que o que esperava viria. Só não tinha certeza se do céu, ou de debaixo da terra. Se desse sorte, talvez viesse  simplesmente andando sobre ela. O homem teve sede, e resolveu procurar algo para aplacá-la. Chegou debaixo dum umbuzeiro que só tinha galhos secos. Lembrou-se das Santas Escrituras “A Figueira amaldiçoada. E indagou-se no seu íntimo: “Mas porque Jesus amaldiçoou-a, se não era tempo de figos? Acontece que no Oriente se colhe figos em junho, e o evento provavelmente deva ter ocorrido em abril. Era de se esperar que houvesse ao menos frutos verdes. A esterilidade da árvore representava a improdutividade de Israel, que o mestre irá pronunciar no dia seguinte: “Eis que vossa casa vos ficará deserta. (Mateus 23:38)” 

Desembainhando sua faca peixeira o homem pôs-se de cócoras na base do caule. Com a faca feriu o lenho da árvore. Do corte extraiu casca e entrecasca até chegar ao miolo. Descobriu o que queria,  que havia umidade ali. Daí pôs-se a cavar freneticamente até chegar a raiz, até encontrar com muito esforço um tubérculo que parecia um inhame. Mordeu até conseguir um líquido muito parecido com água.

Morua-ru-ani chegou. Era um índio. Montava um cavalo preto e saudou o arqueólogo das Arábias com uma flexão do braço e antebraço formando um “éle” ao tempo que dizia alto: “Ha-yá!” O homem respondeu fazendo o mesmo gesto e pronunciando igual saudação, só que em tom mais moderado. Um índio navajo do rosto de pedra, em pleno sertão. Trazia uma tira de pano vermelho prendido na cabeça acima das orelhas passando pela testa. E a cabeleira negra se esparramava até os ombros. O cavalo tinha só uma corda de caruá que passava por cima das narinas e olhos. Uma espécie de cabresto. O índio montava no cru. Vestia uma roupa toda de lona cáqui que cobria-lhe peito e pernas deixando as vistas, os músculos vigorosos dos braços. Em sua própria língua o índio perguntou pelos demais. O homem que até então se mantivera calado com um resmungo diria, que até o presente momento, somente eles haviam chegado.

A irmã de Tagor estava entre as mulheres da tecelagem. Era um galpão enorme, cheio de teares onde centenas de mulheres fiavam cada uma num tear. Fabricavam linha que era conduzida por meio de roldanas pra outra parte da fábrica onde homens faziam o serviço mais pesado, a manufatura dos carreteis e embalagem. Era tudo muito rudimentar. A irmã de Tagor fora parar no ano de 1915 na fábrica da Pedra, sertão de Alagoas. Uma invenção do visionário Delmiro Gouveia. O que idealizou a segunda usina hidrelétrica do Brasil, para movimentar as máquinas de sua fábrica de carreteis de linhas. Colocou luz elétrica na vila dos moradores da fábrica. E fez isso praticamente sozinho. Como tinha ido parar lá naquele lugar, a irmã de Tagor realmente não sabia. Todos a conhecia pelo nome de Antonia da Apresentação. Como não sabiam ao certo de onde viera. Por ser polida, educada, e bela nos trajos e nas feições, os que a acharam deram-lhe esse nome. E garantiram que a encontraram desmaiada, bem no meio do vaso da Catarina. Se não fosse resgatada, àquela altura por certo teria virado pasto de cães do deserto, dos lobos Guarás e das aves de rapina. Realmente uma mulher muito bonita, acabou acompanhando um grupo de retirantes vindo do sertão da Bahia. Achavam que era muito provável que ela tivesse sido abusada por uma turba de ladrões e salteadores e daí tivesse ficado perturbada. Era o que deduziam. No entanto isso não a impediria de alistar-se na frente dos operários pra trabalhar na fábrica de tecidos de Delmiro Gouveia e por isso estava ali. Ganhara uma família, um casal de idosos a adotara. E se ajudavam. Sonhava encontrar Tagor, certa feita jurou tê-lo visto no meio da feira livre, num dia de sábado. Em vão tentou alcança-lo, desapareceu no meio do povo.

De repente a terra foi sacudida. O tremor fez Tagor se lançar em busca das duas garrafinhas que milagrosamente conseguiu resgatar intactas. Duma imensa cratera aberta no meio do sertão surgiu um robô como se fosse um totem de puro ouro. Um transformer, pelo porte devia ter uns três metros de altura, totalmente de ouro maciço. Ouro em estado de plasma, pois era como se possuísse pele humana, só que numa textura semilíquida do metal precioso. Possuía músculos, vértebras, ossos descomunalmente de ouro. Os olhos não tinham brilho e a boca e nariz eram como se não tivessem as cavidades naturais que os humanos possuem. Mas era vivo! Com sua voz de trovão falou: “-Eu sou Vectro o chefe dos alienígenas. Venho aqui para defender meus interesses, a descoberta de novas minas de ouro neste lugar. Fiquei sabendo de uma reunião. Porem vejo que os demais convocados ainda não chegaram, aproveitarei então pra fazer um reconhecimento do lugar”. E saiu deixando quase perplexos, o índio e Tagor. De fato a reunião só aconteceria se os demais convivas chegassem. Aguardavam a chegada de Antonieta, os três meninos das bicicletas, mestre Lucindo e Rafael. Derick e Pietro o italiano, estes juntaram-se a Seu Jorge, seguiram viagem no dirigível. Pietro fez uma loucura, cortou a capota do Fiat Uno tornando-o um conversível e acoplou ao dirigível que teve mais um motor de propulsão a impulsioná-lo. Mas que ficou ainda mais esquisito, isso ficou.

Vectro não precisou andar muito, pra chegar a uma aldeia. E logo foi cercado por muitos aldeões que se puseram a admirá-lo. Todos queriam tocá-lo. A criançada eram os mais exaltados. Queriam saber seu nome, de onde viera. Se viera pra ficar. E qual sua missão. Aquele povaréu humilde, como que carecia de um ídolo. Tagor via tudo pela câmara de seu “drone” novamente lembrou as Sagradas Escrituras: “O Bezerro de Ouro. Vendo que Moisés tardava a descer da montanha, o povo agrupou-se em volta de Aarão e disse-lhe: “Vamos: faze-nos um deus que marche à nossa frente, porque esse Moisés que nos tirou do Egito, não sabemos o que é feito dele.” Êxodo 32:1”  Talvez vissem no alien a única esperança de salvação. Talvez o herói de que necessitavam pra salvá-los de suas mazelas, de tanto sofrimento. Aquela abordagem inesperada. Aquele povo de raça inferior, para Vectro não passavam de vermes. E isso acabou irritando-o. Não deu outra, explodiu em cólera e de sua boca lançou labaredas de fogo sobre eles, e dos braços potentes destruiu e matou muitos.

O coronel Libório Matulão foi até a casa do padre Bonifácio Carnaúba juntamente com Tagor. O padre perguntou-lhe: “Senhor Tagor, o senhor trouxe a encomenda?” Ela fez um aceno de cabeça confirmando. A tal encomenda era justo as duas garrafinhas que o explorador aventureiro imediatamente colocou em cima da mesa e mesmo sem o reflexo do sol continuavam brilhando. Tagor garantia que continham de verdade, água do Rio Jordão numa, e um pouco de terra do jardim do Getsemani, noutra. Tagor daria de presente ao padre se lhe contasse uma história que tinha interesse em conhecer. Era o causo de outro padre, do sertão do Cariri, que vivera naquela região no fim do século dezenove. E que tem a participação dum cangaceiro, e uma cobra sucuri de vinte metros.


Fabio Campos, 14 de fevereiro de 2017.

AS CINCO VISÕES – A PIRÂMIDE (22º Episódio de Tagor Fashall)



Tagor via a ponte. Do alpendre, da casa amarela de alpendre, dava pra ver a ponte. Era ponte comprida, alta, de concreto, arribada sobre o lajedo. Eram sete corredeiras. Agora mesmo, sete bocas secas. Bocas abertas, olhando pro céu. Assopravam, vento, e lembranças de cinquenta anos passados. Não seria cinquenta anos, muito tempo, diante da eternidade. Braços de homens, pobres, porem misericordiosos, os que a ergueram. Tagor estava à Napoleão. Estar à Napoleão, era ficar sentado num tamborete, como se montasse  a cavalo. As pernas afastadas, os bicos das botas fazendo simetria. Com uma das mãos metida dentro da camisa. Porque todo mundo comentava que Napoleão Bonaparte vivia com a mão direita metida por dentro da túnica. Por conta de úlceras estomacais que tanto o incomodava. O olhar continuava lá, nas imponentes corredeiras. A desembocadura das águas do rio, naquela época do ano tão árida tinha só tristeza de pedra, e azul de Deus, que olhava de volta. Mesmo assim imaginou as corredeiras cheias. A correnteza de águas, espumas dançando entre as pedras deixando as pernas azinhavradas, da cor da pele da cabocla.

Um gato enorme surgiu, no muro de arrimo. Escalava a cabeça da ponte do lado da casa. O gato subia, enquanto o muro descia, perpendicularmente descia. Por Deus, era Derick! Aquele gato era Derick! Tagor saiu em desabalada carreira. Precisava encontrar o velho amigo. Saber o que fazia naquelas redondezas. E tudo pareceria muito estranho, se não fosse segunda-feira. Na ponte, todos os dias pareciam iguais. A não ser na sexta-feira quando o gado apressado, era tangido pro matadouro, atravessando o rio pela ponte. Pietro o italiano parou seu fiat “uno” sobre a ponte, e ficou observando a paisagem. De onde Tagor estava (antes de sair correndo) não passava o homem dum ponto branco (porque estava de branco) sobre a ponte. Tagor, o italiano, e Derick. Três seres indistintamente diferentes. Destinos desiguais. Histórias que convergiam e se cruzavam. O epicentro do encontro, uma pedra pontuda, como se fosse um dedo gigante apontando. Mas para o quê apontava? Talvez um dia descobrisse.

Uma pirâmide no meio do mato, do nada surgida. Devia ter uns 20 metros de altura e o estilo lembrava a dos astecas, com quatro lance de degraus nos lados e uma base, tipo um altar no alto. O gato realmente era Derick. Tagor e Derick outra vez se encontravam. Em plena caatinga, a pleno sertão nordestino. Coisas do ‘nor’, coisas do ‘destino’. Derick disse estar duplamente surpreso: num lugar estranho, naquele fim de mundo, encontrar seu melhor amigo. Um ano fazia que não se viam, uma eternidade parecia ter passado. Derick falou que viera a Barragem de Santana com uma missão. Tentaria descobrir o significado da pirâmide, que povo a teria construído, e com que finalidade fora feita? Contou que os piratas haviam partido. Saquearam um dos acampamentos dos aliens, roubaram uma de suas naves, e foram embora. As escavações, a busca pelo metal precioso continuava, muito embora pouco ouro havia conseguido. Eles aperfeiçoaram um detector de metais, tornando-o mais eficiente. Com precisão matemática o dispositivo acusava os locais onde deviam escavar. Com exatidão indicava as quantidades e mesmo o grau de pureza do minério, até o montante de terra a ser tirado. Derick desconfiava que debaixo da pirâmide do sertão, houvesse um tesouro. Os nativos, no longínquo passado, envolveram as arcas cheias de ouro com um tipo de argila que depois de seca impedia o detector de metais localizar. A argila era rica em uma liga de chumbo. Mas que havia ouro ali embaixo, disso eles não tinham dúvidas.

Um dirigível, no céu do horizonte surgiu. Veio vindo. Devagar veio vindo, quando se deu fé, estava bem aqui, debaixo de suas cabeças. Parado no ar. Sem mais navegar o céu, estacionado de sua viagem. Naquele meio dia, em ponto. Suspenso em cima da conversa de Derick e Tagor. A duzentos anos, antes daquele instante do reencontro aquele mesmo dirigível passou por ali. A 24 de outubro de 1817 pra ser mais exato. E agora, feito um disco de vinil, que por conta duma ranhura repete uma parte da música. O dirigível repetia o trajeto, dois séculos depois. Seu Jorge era o nome do piloto, solitário tripulante da nave. Voltado do túnel do tempo, o Zepellin de um tripulante só. Seu Jorge, um homem viajado, experiente, vivido avançado na idade e no tempo. Trajava umas roupas de marinheiro, na verdade roupas de pirata. Trajes da cor de poeira. Aliás, tudo ali era da cor do pó vermelho do chão do sertão. O bojo gigante da aeronave, os cordames que prendiam os andaimes, os equipamentos, a casa de máquinas, a cabine de navegação tudo incrivelmente, monocromaticamente, cor de poeira. Tudo da cor de barro. Sem pronunciar palavras, ele disse: “-Eu sou Jorge garimpeiro”. Tagor, Derick e Pietro o italiano, os três ouviram, o velho falar. Ele falava dentro de suas cabeças. Pois, de onde estava, do alto onde estava, não daria pra ouvir sua voz. Enquanto eles estavam cá em baixo, na ponte, no mato, no meio das pedras, do rio.

Tudo aquilo, talvez não passasse de fruto de suas imaginação. Cada um deles, naquele momento pensou exatamente nisso. E tinham particularmente motivos de sobra pra pensar assim. Tagor ponderava que tinham imaginação muito fértil. Porém, daria tudo, pra saber, em que realmente podiam acreditar. Lembrava nitidamente de ter saído ao encontro de Antonieta. Naquela tarde, de carruagem dirigiu-se a academia de Belas Artes de Étole Chavalier. Sua amada tinha, aula de pintura. Lembrou-se com exatidão até aquele momento. Quando o cocheiro avisou-lhe de haver chegado, ao abrir a portinhola da charrete sentiu a vista escurecer. Quando acordou estava lá, naquela casa do sertão. O italiano chamou-o a parte. Confessou-lhe que não confiava muito no gato. Algo nele não lhe inspirava confiança. Também Tagor havia notado algo estranho nele, mas não sabia exatamente o que era. A emoção do reencontro o faria relevar tal particularidade, mas o italiano em fim, trouxe-o a realidade. Só havia um jeito de descobrir E a hora era chegada.

Seu Jorge disse, que da outra vez que passou ali, sofreu um ataque cruel dos nativos. Por conta desse ataque perdeu seu companheiro de viagem, seu fiel escudeiro Zacarias, foi atingido por um tiro vindo da mata. Despencou da aeronave e Seu Jorge não sabe que fim levara seu amigo. Homens surgidos de dentro do mato atacou o balão inflável. A frente dele havia um como se fosse o líder, montava um cavalo vermelho, e todos usavam chapéus, a despeito dos enfeites, parecidos seriam com o de Napoleão Bonaparte. Pedras, pedaços de pau e muitos tiros de bacamarte disparados. Pela descrição, tratava-se de um bando de cangaceiros.  Seu Jorge estava navegando muito baixo, a poucos metros do solo, tentando reconhecer o terreno. Pretendia inclusive fazer um pouso na região. O dirigível sofreu sérias avarias, quase sucumbiu ao ataque. No seu diário de bordo registrou aquele dia como o “24 de outubro da Fuga Branca”. Apostando no elemento surpresa arremessou, um a bombordo e outro a estibordo, dois grandes extintores de incêndio, ao tempo que de pistola atirou estourando-os em pleno ar. O gás carbônico que nele havia, acabou produzindo uma nuvem de gelo seco. Daí escondido na nuvem de gás conseguiu despistar dos cangaceiros. A nuvem demorou dias pra dissipar e os índios passaram a chamar aquele lugar de “caatinga” que na língua tupi significava mata branca.

Tagor resolveu por o gato a prova. Fez-lhe perguntas desconcertantes. Envolveu-o em recordações de fatos acontecidos na ilha de Páscoa que somente os dois tinham presenciado. Como de nada sabia o Derick falso desconversava. Sem ter como responder a respeito do povo Motu Nui. A lenda dos homens-pássaros, ou Homem-Pajaro, Manutara uma espécie de gavião da ilha, também conhecido como pássaro da sorte. Sobre a competição dos atletas nativos, nada sabia. Na aldeia de Orango homens, numa competição anual, disputavam as moças virgens, nadando léguas, de uma ilha a outra, carregando intacto um ovo de albatroz. O verdadeiro Derick e Tagor assistiram aquela festividade, havia cinco anos. O vencedor com honras de herói era recebido pelo príncipe Motu Nui. Decorridos três dias da competição, o ovo era esvaziado, preenchido com fibras vegetais, e numa espécie de cocar colocado sobre a cabeça do primeiro colocado. E a partir de então passava a ser denominado de “Manutara”. Sobre sua cabeça, o troféu devia permanecer por um ano. Até que novo vencedor o conquistasse na competição do ano seguinte.

 O Derick falso, desmascarado deu-se por vencido. Ele era na verdade um ciborgue a serviço dos alienígenas. Dentro dele só havia articulações metálicas, chips de transmissão de dados. Seus olhos duas câmaras que filmava tudo.  Se passar pelo gato gigante amigo de Tagor foi só uma estratégia, tão somente para ganhar a confiança de Tagor, e dele obter ajuda para decifrar o enigma da pirâmide. Resolveram procurar o padre da vila de Santana, souberam que ele tinha informações importantes sobre o mistério do tesouro escondido na mata. Não exatamente sobre a pirâmide, mas sobre um certo cangaceiro, sobre outro padre que um dia passara naquela freguesia, e que sua fama chegara a Roma. Arrebanhava multidões com seus sermões, e ser tido como um visionário e até obrar milagres. Uma serpente de dez metros de cumprimento também entra na história. Ameaçado de excomunhão teve que viajar a Santa Sé no Vaticano, para se explicar junto ao pontificado e a cúria romana. O italiano, faltava ele dizer, o que estaria fazendo naquelas paragens. Sua presença parecia não encaixar nessa história toda. Mas como diria Thomas: “-Só que não, né?” Pois muito tinha a ver sim com tudo. A origem da pirâmide misteriosa começava na cidade de Nápole, província de Salerno. Restava saber como e por que viera parar no sertão.

"Visão dos Cavalos. Do livro do profeta Zacarias. Capítulo 1, versículos 7 a 9 "No vigésimo quarto dia do décimo primeiro mês (o mês de Sabat) do segundo ano do reinado de Dario, a palavra foi dirigida ao profeta Zacarias filho de Baraquias, filho de Ado, nestes termos: tive uma visão durante a noite. Percebi, entre as murtas do fundo do vale, um homem montado num cavalo vermelho e atrás dele estavam cavalos ruços, alazões, e brancos. Eu perguntei: "Meu Senhor, que cavalos são estes?". E o anjo porta-voz respondeu-me: "Vou explicar-te".


Fabio Campos, 01 de Fevereiro de 2017.

P.S. A gravura que ilustra este episódio, é do próprio autor, e já ilustrou outra história neste blog. A publicação data de 19/07/2011 Ilustra o Conto "Graf Zepellin em Santana do Ipanema" Vale a pena Ler!

SÍTIO CABEÇA DE MENINO (21º Episódio de T. Fashall) Mateus 18,7-9

A nona hora do dia, lá estava Tagor, no meio do deserto, da caatinga. A vegetação inexistia aos olhos, mas lá estava. Era só buscar. O que mais havia pó da terra. E seres estranhos camuflados nele. Como na terra da lua. Um sol desproporcionalmente pretencioso. A esturricar os couros, por fora e por dentro dos ossos, dos viventes atormentados. Um esqueleto de cachorro estendido ao lado da estrada sorria. E era sorriso de derrotado, e vencedor. Desobrigado de viver, debochava de si mesmo. Os abutres, já a festa tinham feito com sua carne. 

Magnólia haveria de fazer o que tinha que ser feito. Agradecida por estar viva, e amanhecer serena. Uma lata de querosene, com uma haste de pau improvisada, atravessada na boca. Usava pra carregar água do barreiro. O pano da rodilha no ombro, o chapéu de palha na cabeça. Amarrotado, desavermelhado de tão gasto. Cansado da lida desumana.  Silvia, a filha de Magnólia pretendia fugir. Tagor ficou sabendo, ele viu tudo. No tempo do ramadã, na peregrinação anual ao Taj Mahal. No reflexo do espelho d’água da fonte, viu tudo. A menina tinha somente quatorze anos. Botou na cabeça que iria embora dali. A sua outra na Índia naquela idade já era mãe do primeiro filho do príncipe. Todos os dias ter que acordar às seis da manhã, ir pra roça, estrovengar uns pés de mandioca. No lombo do jumento uma touceira da carne de Mani, levaria até a casa de farinha. 

O caititu aguardava-os, calado. Doido pra roncar. Depois de descascado e limpo, os braços branquinhos de Mani eram triturados na máquina. Virava um polvilho alvo. Massa cheirosa igual corpo de cabocla. E logo era levada pra mesa do forno. Com um rodo de madeira tinha que espalhar com veemência, pra não queimar nem embolar. O que ficava pelos cantos fatalmente viraria beiju. A farinha era o principal produto, a vedete das suas parcas refeições do meio dia. Juntava-se a um feijão fervido dentro duma panela de barro, cheia de água de barreiro e um punhado de sal. Nas manhãs, o astro rei que brilhava na mesa era o milho, e deleite de cuscuz. Olhando pro terreiro, ficava se lembrando dos dias frívolos, dias felizes de invernadas. No oitão da casa as hortaliças simplesmente nasciam, cresciam frutificavam. Tomateiro, hortelã, limoeiro, carambola, melão. O umbuzeiro cuja carga vingava somente as vésperas de semana santa. Arriscava desde já. Lá no alto olho servir uns maturis.

O barro marrom, quase vestido de preto estava morto. Amuado numa dureza, embalsamadora. O Can-cão e o Anum, as únicas aves que ainda dava pra ver nos galhos quase sem folha do juazeiro. O carcará e o Urubu-rei sumido dum jeito que parecia não mais existirem na face da terra. Mas era só morrer uma criatura, e do nada, eles apareciam. O mandacaru com seus olhos vermelhos chorava. A espetar o céu com raiva, como se quisesse com suas cruentas espinhas furar as nuvens. Quem sabe assim derramariam as águas que talvez encerrassem nas entranhas. Nuvens brancas, secas, sem água. Feitos limões inchados. Inúteis que só tinham tamanho. Porém, vistosas e bonitas, isso eram. Mas por dentro só gomos secos. Lúcia e Carmem foram pagar suas promessas. Levaram velas para acenderem nas capelinhas de fiéis defuntos. Largados na beira da estrada esperando almas penosas, de gente penante, penitente. 

Era tempo da novena, da vila do Brejo Seco. E tinha como santo padroeiro São Sebastião. Um cortejo seguiu pela estrada desigual. As roupas brancas dos tocadores, as fitas azuis contrastante com as vermelhas. O som dos pífanos brigando com a zabumba, o estridente som dos pratos, esganando a placidez da tarde. Os bacamarteiros estrondando seus rojões, enchendo de fumaça branca a napa azulina das cortinas da casa de Deus. Aquilo tudo não demoraria e viraria o avesso. E as cores, mortas de cansadas iam dormir. Os olhos agora dependeriam dos bicos de luz. As gambiarras cirandando o oitão, da porta da igrejinha de São Sebastiãozinho, imagem tão pequenina. Num altar de flores de pano e caixa de papelão recoberta com lenços rendado de filó. Dom Adalberto e seu terno branco, devido ao sentar, ficava amarrotado nas bordas.  Segurava com uma das mãos o chapéu branco, e com a outra um copo de vinho do padre. O pároco alertou que não embebedava, mas se tomasse um copo somente. Nos anos magros, a mesa de prendas ficava escassa, raquítica, feia. Um bolo de cuscuz, uma panela de carne de galinha guizada. Olhem só, esse ano tinha uns preás desviscerado, tratado com sal, só esperando fogo. 

Abelardo de Elúzia, também pensava em ir-se embora, sozinho. Não dormia de noite, pensando no que ia fazer. Abandonar mulher e filhos naquela lapa do mundo. Mundo de meu Deus, onde aprendera a ser gente. Elúzia sabia que ele ia mesmo era pro sul, pro corte da cana. Arriscar a vida no inferno verde. Mas os planos eram outros. Juntaria dinheiro, economizaria tostão por tostão. Intensão de voltar, porém, não tinha. De lá, pra mais longe ira. Fugiria daquele mundo doido, mundo de testar paciência do povo. Mundo de viver o povo a olhar o céu. Mundo de esperar Deus querer. Mundo desumanamente humano. Os três meninos teriam que aprender a viver a vida sem pai. Saber desde cedo que a vida cobraria de cada um deles, coragem por dentro do medo. De ter que abrir um poço de muitos metros de profundidade, cavando com raiva, com determinação, ora metendo a picareta, ora as próprias mãos. Enfiando no barro como quem busca ouro, até sangrar os dedos. Porque água era ouro naquele lugar.

Seu Antônio de comadre Estelita era um varapau de homem. Branco, parecia um norueguês, sofria naquele tempo de muito sol. O rosto, feito pimenta, ficava vermelho. Parecia que ia enfartar. O sangue latejava nas têmporas de vastas costeletas. E pra completar, antes das refeições tinha que tomar uma dose de cachaça. Dizia que era pra espalhar o sangue. Em dia de feira a casa ficava cheia de familiares vindo de longe, do Pedrão, do Gavião, do Caititu, do pé da serra. As mulas carregadas de panelas e potes de barro pra vender na feira. Os caçuás eram forrados com folhas de catingueira, pra amenizar os solavancos da cavalgada, e não acabasse quebrando as peças de argilas. Uma boca de difusora arribada no poste da pracinha central anunciava a missa. O padre na sua batina preta enxugava o suor que ia descendo pelo pescoço, empapando o colarinho branco. A fila das confissões encostada na parede, cheia de culpa, de piedade, de murmurações. O rosário Apressado, entremeado de lembranças aflitas, de obrigações esquecidas, que tentariam fazer antes de voltar pra casa. O jogo de baralho no cassino chinfrim de Seu Lira. A rameira angariando um freguês na tolda de fumo de rolo. A piada safada, oportuna. A gargalhada desprendida. O cigarro acendido, com as mãos em concha. A cusparada. Um asqueroso fio de baba na barba, despontada, por fazer. A saia espetaculosa da rapariga, dando nos nervos dos homens cínicos, dos meninos afoitos, e mais ainda das mulheres sérias. Mães de família angariando satisfações. A briga inevitável na porta do mercado. O furto oportuno, aproveitando a distração dos curiosos. 
   
O irmão de Abelardo teve, por ele mesmo, os cabelos arrancados, um a um. O desespero, a angústia. Pior era saber que pra aquilo não havia futuro, nem cura, não havia saída. Ele ouvia vozes, dizendo pra fazer. Odiava aquele alguém que falava dentro de sua cabeça. Azucrinando o juízo. O bruxismo enervante, os lábios ficavam como que cortados à faca peixeira. A bola dos olhos, furados com agulha de costura. Raiados de sangue. Os pulsos cortaria, com gilete cega. O sangue vermelho tingiria a pele alva, respingando na calça jeans, desbotada. E depois que secava, o vermelho vivo, ficava vermelho morto, escurecido. O aperto no coração, a palavra ríspida, o ódio. Tagor se sentia impotente diante daquilo tudo. Sentia-se como um peixe fora d’água. Aquelas lembranças angustiante dando-lhe nos nervos. Não sabia. Aliás, lembranças não tinha que tivesse parentes no sertão. Era sufocante, os ares da caatinga. Exaustivo, causticante sertão. O sobrinho vinha pedir a benção. Achava estranho aquele costume, mesmo assim abençoava-o. Não queria se demorar ali. Tudo ali dava-lhe nos nervos. Sufocante verão, de não ter lugar bom pra por os olhos. De não ter os olhos onde descansar. Igor seu sobrinho e afilhado, disse: tio o senhor está tão esquisito... Talvez fosse a barba por fazer, o cabelo, as unhas por cortar. Era como uma ressaca que não sendo do mar, nem do álcool assediava-lhe moralmente. Os brios, o ego empedernido.

Havia uma tradição, de quando se estava com raiva, os mais velhos diziam: “Respeite-me! Ou eu arranco-lhe a cabeça fora!” Porque tinham como premissa seguir as Sagradas Escrituras. E segui-la ao pé da letra, sem pestanejar: “E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno. E repetia: "Está em Mateus 18-9” O que estava dito, era pra ser seguido. E, se devia arrancar um braço, um pé, ou um olho, pra eles as sábias palavras, valia também pra cabeça.

A luz intensa, a fotofobia. Sons de zumbidos nos ouvidos, náuseas. A sede, a falta de ar. Os pulmões como se tivessem cheios d’água, mas sem água. A serra pedia socorro, os céus, porém, mantinha-se calado. Os homens, mesmo nos seus silêncios, também pediam a Deus, socorro. As pedras, as únicas que não pediam nada a Deus. O tempo todo quarando, se bronzeavam caladas. Não reclamavam, nada exigiam. Apenas existiam, e isso era suficiente pros que são agradecidos. Tinham consciência que era paisagem. E as carroças esperariam os dias bons pra voltarem, e serem felizes novamente. E os livros falariam delas com muito amor, humor e graciosidade. E encheriam os dias de poesias, de alegria boa, feito água de enxurrada. O entendente precavendo-se mandaria fazer um muro de arrimo na jusante da ponte das águas do rio. Pra quando viesse a cheia, a enchente fosse contida e não ameaçasse as casas. O braço d’água acotovelando-se nas casinhas de contar, uma, duas, três cores.

Tagor criava coragem pra dizer do que viu. Um monstro de lodo saindo de dentro de um homem que não sabia que abrigava tal criatura dentro de si. Os sete homens ficaram estupefatos diante da façanha, três meninos também viram, e comentaram entre si o acontecido. Ao entrar na sala Seu Felisberto estava com raiva, raiva daquelas de esmurrar paredes, e quebrar copos de café, de desejar uma dose de uísque pra aliviar a cólera. Mas não havia motivos pra raiva só não gostava era porque os meninos perderam o respeito aos mais velhos. Uma espécie de inversão dos valores na hierarquia palaciana. Príncipe virava vassalo, e era encarcerado nas masmorras. E as prostitutas valiam mais que donzelas. E as quem saiam com a maior quantidade de homens eram as mais valorizadas. Igor, olhando pro crânio do boi no alto da estaca, lembrou de uma história contada por seu avô, sobre a tradição de se pendurar a cabeça dum boi na entrada da fazenda. Contava seu avô que um velho fazendeiro criava uma raça de gado manso, bom de lida. Mas apareceu no meio do rebanho um garrote valente que num momento de fúria imprensou seu dono contra a cerca. O fazendeiro não contou conversa dum só golpe de machado arrancou-lhe a cabeça fora. E mandou pendurar na entrada para que o rebanho todo visse. E temendo acontecer-lhe o mesmo o respeitasse.

Tagor pediu pra ficar só mais uma semana ali. Tempo suficiente para conhecer melhor o afilhado. Os sobrinhos, a filha que tivera na adolescência com Leonor. Se dependesse dele, pirataria, nunca mais. No entanto como era bom lembrar do passado. Dos tempos de corsários e ataques aos castelos de nobres. E os cangaceiros reconheceriam neles tudo o que mais lhes inspiraram. O chefe deles seguiu o cangaço, depois de ouvir umas histórias contadas por Tagor. Naquela mesma noite os legendários atacariam o Rancho do velho Felisberto. Donde, arribada numa estaca, a cabeça de um menino agora mesmo gotejava sangue.   

Fabio Campos, 20 de janeiro de 2017.