O MONSTRO DA GARGANTA DE OLDUVAI (26° Episódio de T.F.)

Havia um fogo que queimava, e não consumia. A cidade inteira em chamas. As matas, e tudo em derredor. Os campos, as montanhas, em fogo ardente. O rio, como larva fervente, em baixo da ponte, passando vagarosamente. As pessoas ainda que em chamas. Porem, agindo assustadoramente normal. Tudo, em fogo vivo, porém, na completa paz. Tagor percebeu imediatamente, que não mais se encontrava na terra. Tudo se transformara num mar de sol incandescente. 

Não conseguia entender como, aquele fogo ardia sem devorar as coisas. A matéria, as substâncias, tudo permanecia inexplicavelmente intacto, apesar das chamas. A rua, amplamente frequentada. Homens, mulheres, crianças ricamente vestidos de fogo. Homens com trajes de lordes ingleses, mulheres com vestidos longos de madames flamejantes. As carruagens, os cavalos tudo em estado de combustão, desfilava pelo paço, em tons alaranjado. Transitavam, com a normalidade de um dia de verão. Crianças na praça brincavam de pular corda. No pinga-fogo faíscas largava do chão. Sobejando pinos de fogo, feito ferro no esmeril. Meninas saltavam amarelinha, vermelho alaranjado, de tão quente. Meninos rolavam aros de ferro em pura brasa, girando no calçamento de paralelepípedos em puro fogo. Um cavalheiro se aproximou montado em seu cavalo. Num aceno de mão, chamou Tagor, encolhendo os dedos.

Lucas, o terceiro menino da bicicleta se encontrava em casa. Nove anos de idade tinha ele. E era agora, nos dias atuais, exatamente hoje que se encontrava. Havia chegado da escola, fazia muito calor. Por ter que ter acordado cedo estava muito cansado. Deitou-se na cama sem sequer tirar a farda, nem os sapatos. A mochila largou ao pé da cama. Tinha fome, e sede, mas faltava coragem, vencido pelo cansaço adormeceu. E teve um sonho com Tagor. 

“E estando ele nos tormentos do inferno, levantou os olhos e viu, ao longe Abraão e Lázaro no seu seio. Gritou então: -Pai Abraão compadece-te de mim e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo, a fim de mim refrescar a língua, pois sou cruelmente atormentado por estas chamas. Abraão porém replicou. Além de tudo há entre nós e vós um grande abismo, de maneira que os que querem passar daqui pra vós não o podem, nem os de lá para cá. Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas, Cap. 16 Vs. 23-26”

O homem da montaria, que chamou Tagor, apeou. Desceram lado a lado, pela rua principal. O cavalo, o homem e Tagor. O cavaleiro trajava um sobretudo negro. Na cabeça uma cartola de feltro bastante surrada, enegrecida de grude, fubazenta, cheia de bolor, de tão velha. Vastas sobrancelhas na testa larga. Na lapela, um broche de prata na forma de um dragão. Tirou um charuto do bolso, cortou a ponta com um cortador de prata. Acendeu-o com um isqueiro engraçado, cujo design remetia a um morcego, também prateado. O homem do cavalo convidou Tagor a entrar numa taberna. Uma moça de cabelos de fogo veio os atender. Seus olhos, para um bom observador, eram tristes. Sua boca, porém, muito sensual adornada de um baton vermelho vivo. Olhou para os dois, colocando doçura e beleza na disposição de servi-los. O homem da cartola pediu uma garrafa de conhaque, Tagor preferia vinho. O homem da cartola disse que naquele país, vinho era bebida proibida. Tagor aceitou um rum. Só então o homem apresentou-se: “-Senhor Tagor, eu me chamo Parantrophus, sou um dos guardiões do templo de Armagedon do príncipe Menphis Estofelis, trouxe-o aqui, pois tenho uma proposta para lhe fazer.”

Antonieta naquele instante se encontrava no ateliê de costura de dona Antonia dos Reis. Estava ali pra provar o seu vestido de noiva. Muito em breve aconteceria seu casamento. Era um belo vestido, um imenso véu cobria a fronte deixando seu rosto diáfano. A grinalda cobria seu cabelo, e descia até arrastar-se no chão. Belíssimas luvas de cetim cobria parte dos dedos mimosos de suas mãos magras. Delineava suas curvas o belo vestido, todo pinçado de pérolas. Contas de pérolas por toda a borda do busto. Sobre uma cadeira um buquê de flores, rosas vermelhas, perfeitamente compostas. O espelho refletia toda a candura de uma noiva feliz, porém apreensiva. Dona Antonia, fazia de tudo para tirar os vincos, não apenas das vestes, mas de preocupação desenhada no semblante da moça, mas não estava nada fácil conseguir. O pensamento viajava pelos quatro cantos da futura cerimônia. Não conseguia apartar-se das preocupações pelo que estava por vir. Revivia mentalmente cada instante. Os convivas, os quitutes, as bebidas, o bolo magnificamente manufaturado. Os solenes juramentos, as alianças.  O brinde, o beijo nupcial, os cumprimentos dos padrinhos. Os músicos, a marcha nupcial, tudo pronto para aquele que seria o dia mais incrível de sua vida. Não entendia porque o noivo, a poucas horas de irem pro altar, simplesmente evaporara. 

Alguém disse tê-lo visto  na taberna, tomando vinho com um estrangeiro, foi o que ouvira dizer. Não havia padre na vila, ele viria exclusivamente pra cerimonia, especialmente requisitado para a ocasião solene. Chegaria com o dobro do mau humor que tinha. A viagem longa, cansativa contribuía pra isso. Os paramentos colado ao corpo. O calor dando-lhe nos nervos. Antonieta não tinha a menor ideia de onde Tagor estava. Mas tinha certeza pronto para a cerimônia não estava. Naquele exato momento se encontrava na taberna bebendo com um estrangeiro num pais tão distante e quente que o estrangeiro chamava de “Hell”. De certo que não iria casar trajado como um pirata que era como estava naquele exato momento.

Marcos o segundo menino da bicicleta. O que tinha sete anos. Teve pesadelos naquela noite. Sonhou que resolvera matar todos os gatos da sua rua. Nada tinha contra os bichanos. A raiva era porque dona Margarida, a professora, possuía um gato que lhe arranhara no rosto num dia que foi ter aulas de reforço em sua casa. Ele mesmo começou a encrencar o bichano, acabou ganhando um belo dum arranhão na cara, que deixou-lhe com uma cicatriz muito feia. Prometeu vingar-se. Tinha porem, um problema, se somente o gato de seu ódio aparecesse morto, levantaria suspeita. Daria pra desconfiar que fora ele. Era preciso matar todos os gatos daquela rua, quiçá todos da Vila! Para que não gerasse desconfiança. Para isso era preciso bolar um plano perfeito. Um crime perfeito. Precisaria da ajuda do melhor amigo, Tagor.

Tagor, enquanto conversava não tirava o olho duma pintura na parede da taberna. Era uma natureza morta. Tinha flores, um bule, uma xícara de porcelana. E os dizeres: “Cafés des Fleurs – Jardin de Luiz XV” A xícara da pintura tinha números, em algarismos arábicos e romanos, nas bordas. O que era algo, no mínimo interessante. Chouchoulina a bailarina do cabaré francês herdara a pintura de seu pai, que era dono de um circo. Lembrava muito bem quando ele morreu, no seu leito de morte chamou a filha e despediu-se dizendo que guardasse aquele quadro, para o resto da vida. E que ele encerrava um segredo que não conseguiu revelar pois não deu tempo, a morte chegou primeiro, morreu sem dizer do que se tratava. Uma vez que ela era a última herdeira da família, falou que jamais deixasse alguém ficar com ele. Soube de sua vó que toda a sorte da família estava naquele quadro, caso ela se visse em situação muito desesperadora, somente num caso extremo abrisse o encaixe da moldura pois lá existia um segredo. Mas somente em caso extremo e ela obedeceu, até o pai cair no leito de morte. Ponderou que a hora era chegada, iria abrir o encaixe do quadro. A consciência não ia doer tanto, afinal o pai estava morto agora. Estaria realmente?

João, o primeiro menino da bicicleta estava em 2056, mesmo assim não crescera, e tinha ainda seus cinco anos de idade. Encontrava-se num longínquo país africano ao norte da Tanzânia tinha uma história pra contar a Tagor. Descobrira que os aliens não passavam de parentes dos insetos eles eram artrópodes evoluídos. As duas patas a mais que possuíam logo abaixo dos braços. Braços quase humanos que tinham. Só que resolveram esconder dentro das roupas de metal, o par de braços extras, para ficarem mais parecidos com os humanos. Conversou longamente com um monge hindu, descobriu que dali de onde se encontrava distava exatos mil quilômetros da margem direita do rio Eufrates. Estava portanto a um milhão de metros do Monte Megido. O local ficara conhecido como Armagedon. Lugar onde, segundo os Livros Sagrados, se travaria a batalha final de Deus contra as sociedades humanas iníquas. Monte Megido ou “Har Megido” em hebraico. No livro do Apocalipse e também do profeta Jeremias.

“Chegou o dia do Senhor Javé dos exércitos, dia da vingança em que arruinará seus inimigos. Devorará a espada até fartar-se, abeberando-se de sangue. É a imolação ao Senhor Javé dos exércitos, ao norte, às margens do Eufrates. Jeremias (46,10).” 

Ali, todos os exércitos da terra se reunirão para a batalha final na colina de Megido. O local era assustador mesmo em plena luz do dia. Havia uma montanha que possuía uma imensa caverna chamada de “Garganta de Olduvai” que segundo os nativos abrigava um demônio chamado de Parantrophus que estaria dormindo dentro da garganta há dois milhões de anos. Eis que a terra começou a tremer. João não tinha a menor dúvida a fera havia despertado.


Fabio Campos, 16 de março de 2017.  

TAGOR! TAGOR! (25º Episódio)

Os gritos ecoavam dentro dos ouvidos. Mas ele, apenas Tagor conseguia ouvir. Antonieta sendo atormentada em sonho. Era cruel ver aquele pobre homem sofrendo no escuro, sem que nada pudesse fazer. A noite inteira andaria pelas ruas. Quando era pequena, um dia sua vó, lhes dissera que quando a gente dorme, a alma saía do corpo. E que ficava a vagar pela cidade até raiar o novo dia. Encontrou uma árvore de tronco negro plantada bem no meio da longa calçada, da rua mal iluminada. Os galhos assemelhavam trombas de elefantes empedernidas. As folhas gigantes abrigavam seres estranhos. Uma jia amarela pintada de bolinhas verdes como que sorria, de olhos abertos dormia. O papo enchia e desenchia, de modo a entender que mascava chiclete, fazendo bolas dentro da própria boca. Enquanto umas borboletas nasciam dos galhos, dos ramos das árvores, saiam voando feito vagalume. Subiam e subiam, até sumirem na imensidão do cosmo.

Tagor sentia fortes dores nas articulações dos joelhos, estava muito cansado. A caverna cada vez mais ia ficando menor, mais apertada. Forçando a ficar cada vez mais abaixado. O que acabava forçando as articulações das pernas, não sabia aonde ia dar. Não tinha a menor ideia pra onde estava indo, nem ele nem o pai de Antonieta. O oxigênio ficando cada vez mais escasso. A respiração ofegante. E os gritos da amada não paravam. Instintivamente, começou a cavar com um pedaço de pau que encontrou atirado ao chão. Depois com as próprias mãos e de repente, um buraco no teto deixou aparecer um raio de luz azulada, que era como uma bola de céu. Na verdade um buraco azul de céu. E chegaram a superfície de algum lugar muito bonito. Era deserto e o que mais havia era areia. Tão amarela que mais parecia ouro em pó. E andaram a esmo procurando sem saber direito o que. Ao escalar uma daquelas dunas eis que viram uma casa plantada no meio do lugar inóspito, aridez de alma. Era uma casa de campo. Uma choupana.

A casa tinha telhado baixo, paredes caiadas. Janelas com vidraças e cortinas. Os chanfros eram vermelhos muito vivo. Bem como os umbrais das portas. A porta dos fundos batia e batia açoitada pelo vento. A cozinha certamente estaria cheia de areia do deserto. Tagor do meio do deserto viu o interior da casa. Havia um tapete de pele de urso, uma lareira acesa. Quadros na parede, retratos de família. Um quadro chamou-lhe atenção. Era de uma xícara de porcelana uma pintura diferente: na borda 12 letras do alfabeto, em latim. Na base de um a 30, em números arábicos, e na borda do pires números que iam de um a mil em algarismos romanos. Uma menina, com vestes de dormir subia uma escada de madeira de lei com dois lances que dava num primeiro andar. Não dava pra ver o rosto da menina, só dava pra ver-lhe as costas. Ela tinha um longo cabelo que descia até sua cintura. Cabelo liso, solto. A menina segurava um brinquedo, muito provável estivesse indo pro seu quarto dormir. Mas alguém muito mau que estava na penumbra a espreitava. Era um homem, e dava pra ver apenas a silhueta. Ele tinha mãos enormes, de pessoa que talvez tivesse problemas mentais.  

Da janela do quarto da menina dava pra ver o mar. O mar estava bravio, as ondas quebravam na praia, com força quebravam, com raiva. Estrondavam com volúpia. O homem da penumbra agora estava sentado na praia, e olhava o mar cheio de melancolia e tristeza. O vento movia pra trás a aba do seu chapéu, ameaçando tirá-lo da cabeça. O homem fumava um cigarro, que era muito mais consumido pelo vento, da tempestade. O rosto de sal, de areia e lágrimas que jamais teve vontade de chorar. O vento arrancava-as furiosamente dos olhos de chumbo. E as lágrimas ao invés de descerem pelo rosto, iam pra trás juntar-se ao cabelo negro, revolto. Era possível sentir sua respiração, de alguém ansioso, raivoso. Desses que acham que o mundo, muito mal havia feito para si. E que odiar, destruir, achava isso muito natural. Visto que não via outra coisa a ser feita que não fosse o que sempre fizera, odiar. Jamais admitiria remorso ou arrependimento, o que havia feito, estava feito, e pronto. 

A tarde parecia noite, as nuvens acabariam ficando com cara de ódio. O homem conseguiu contaminar tudo com seu azedume. O céu não aprovava, mas isso era o que menos importava. Viver era muito mais cruel. A praia não concordava, e tudo parecia estar muito triste por conta dessa desarmonia. O barco balançava a proa como se dissesse: “Eu te odeio!” “Eu vou, eu quero te afundar.” Também os peixes e todos os monstros marinhos deviam estar a par de tudo, e também detestavam aquele tipo de situação. A vara de pescar, o metálico molinete, frio e molhado, apenas olhava. Fincada na areia molhada, tão fria acabava enrugando a barriga dos dedos.  Tempo perdido, pescaria perdida, vida perdida. O peixe que o homem não conseguira pescar, jamais tivera o olhar fixo no céu ,enublado, pra onde jamais iria. E suas guelras subindo e descendo, a boca abrindo e fechando lentamente. Se debatendo mais uma vez, sujando de areia as escamas brilhosas de lantejoulas. Nada daquilo fazia o menor sentido, significado algum tivesse. Nem precisava ter. As almas dos marinheiros que morreram no mar, em momentos como aquele resolvia voltar do fundo, do profundo oceano e ficavam andando na praia. Passavam uns pelos outros, calados. E quão trágico era. Os navios e barcos naufragados, pouco a pouco, vindo aportarem na areia. E de seus cascos arrombados, lodosos, carcomidos dava pra ver arcas, arcaicas. Entupidas de moedas de ouro, joias, dobrões, espadas de puro ouro. Tudo irremediavelmente perdido.

Antonieta entendeu que a árvore estava se abrindo, se rachando ao meio. Deixando escapar uma intensa luz verde de seu interior. A luz apontava pro céu negro, e ao chegar lá, ia se perdendo no infinito. Pensou que aquilo pudesse ser um farol, um tipo de comunicação dos aliens lá no cosmos com os aliens que estavam aqui na terra. O barulho de um pelotão de soldados em marcha fê-la voltar o olhar pra rua. De fato um grupamento de policiais vinha em marcha acelerada no leito da rua. Vestia fardamento verde fechado, seus coturnos pretos produziam o barulho característico ao chocar-se com o calçamento. Pararam de frente uma edificação magnífica. Uma espécie de quartel muito semelhante a um castelo, de fachada azul claro e frisos brancos. O jardim era bem cuidado, a grama bem aparada. Não fosse pelo arame farpado, as cercas elétricas, os holofotes e câmaras de circuito interno ninguém diria que tratava-se dum campo de concentração. Um tipo que parecia ser o comandante da corporação deu ordens para se posicionarem em pelotão de fuzilamento. Mas quem seria executado?

Milu continuava com os olhos arregalados pra o visitante. Tagor tentou passar a mão na cabeça da gata, mas ela arreganhou a boca mostrando os dentes, e dando aquele soprado de ar ameaçador que todo gato faz quando sente o perigo. Ao tempo que esticava a coluna vertebral pra parecer maior ao seu opositor. Tagor só queria tomar umas informações novas com a anciã. Sua fala foi reconhecida por aqueles quase centenários ouvidos. Dona Gumercinda entendeu porque ele estava ali. Inclusive tinha um presente para lhe dar, um broche que ganhara no dia do seu casamento. O marido era mascate comprou aquela joia a um vendedor ambulante que garantiu, pertencera a uma noiva de um mágico de circo. O mágico no seu show fazia o perigoso espetáculo das facas. A namorada presa a um tablado circular enquanto ele arremessava facas incendiárias. Com o picadeiro totalmente às escuras. Eis que num dia trágico, o casal brigou. Na hora da apresentação ele arremessou uma faca que veio perfurar um pulmão da moça, que viria morrer em consequência disso.

A cobra que engoliu o cangaceiro, não conseguiu ir muito longe. Pois como disse o padre, esses répteis gigantes quando engolem uma presa muito grande, não conseguem movimentar-se muito rápido. De modo que a volante dos soldados de polícia mais a guarnição do coronel Rodrigues de Miranda conseguiu matá-la. Mas já era tarde demais para salvar a vida do cangaceiro Cascavel. O corpo do desafortunado bandido foi trasladado para Sergipe, mais precisamente para Porto da Folha, sua terra natal onde foi enterrado. Já a cobra de vinte metros foi empalhada e ficou exposta ao povo. Onde se encontra até hoje, no museu das relíquias do padre Segismundo, em Juazeiro do Norte.

Milu a gata, queria saber o paradeiro de Bola de Gude e Chiclete. Tagor e Antonieta sabiam pois tinham visto Chiclete em companhia de uma amiga chamada Chouchoulina uma bailarina francesa, que morava no subúrbio de Paris. Já Bola de Gude momentos difíceis dentre suas sete vidas viveria ainda. Foi adotado por um vendedor de carne de porco que gostava de bichanos, tinha pra mais de quinze. Na hora do almoço era aquela farra. Os gatos tudo miando por uma porção de carne. Romenito “Jo-Jo” o açougueiro, alimentava-os com carinho, escolhia um dentre eles, punha no colo e deixava até comerem sobre a mesa, no seu próprio prato. Sua esposa dona Diolinda odiava aquilo, tinha raiva, porém nada dizia. Apenas sonhava um dia, livrar-se de todos eles. Matar todos aqueles gatos! Prazer indizível. Tagor, sentiu calafrios. Pertubou-se na alma. Lembrou de quando era jovem. Temeu seus próprio pensamentos. Dona Diolinda não suportava ter que aguentar os caprichos do marido, com tanto zelo e dedicação aquele monte de peludos nojentos. Chiclete vivia com Esmeraldina a namorada do capitão Aquino de Lucena. Agora, como o capitão encontrou Chiclete, aí é outra história.

Fabio Campos, 07 de Março de 2017.         

NA CAVERNA DOS MORTOS (24º Episódio de T.F.)

O que se descortinava eram telhados. Um coqueiro lá acola. Dum quintal acenava pros saguis, que saltitantes iam por cima das casas. Araras empoleiradas, de exuberância em penas, as varandas das cozinhas A disputarem qual mais bela nuança com as estampas das roupas coloridas estendidas nos varais. E tudo era tão sincero, assim feito falas feitas em casa de vó. Cena tão americanamente tropical. Algazarra de meninos brincando, descobrindo os macaquinhos. Sol macio, amornando as coisas, entusiasmos. Afagando os muros, valorando as pinturas, as caiações, os desenhos floridos de tanto esmero, e talento dispensados. Os céus, de ventos que anunciavam nuvens, redemoinho de poeira, mas não chuva. As pessoas, zoarentas circulavam no meio da feira. Dentre eles Tagor, que precisaria vender um de seus pertences pra comprar algum suprimento. Foi à feira do rato, pra onde vendilhões de quinquilharias se dirigiam a comercializarem objetos de toda sorte. Uma antiga lamparina coberta de limo, no meio de outras peças esquecida. Chegou trazendo recordações. Candeeiro da cor de escuro. Alumiou, lembranças negras.  

O cheiro de terra veio vindo, trazendo esperanças e lembranças de dias muito velhos. Dias de tão lá trás, que acabaram cristalizados, na paisagem da estrada do tempo. O único carro daquele tempo ganhou estrada que era só sua. Uma estrada inteira, feita pra um único carro andar. E no seu percurso solitário a criar histórias. De encontrar pessoas solitárias, caminhantes. Amanacy e Aracy caminhando iam pela grande vereda que os homens construíram pras geringonças que roncavam, andar em cima. A filha de Amanacy ganhara dianteira. Ao ouvir, o ronco do automóvel de Delmiro Gouveia, parou a esperar a mãe. Os cabelos falavam com o vento. Do quão era bom tomar banho de açude falavam. Ganhar cheiro de sabão da terra, água boa de lavar cabelos, de lavar corpos, e abrandar os medos que ameaçavam a alma. Aracy na cabeça, uma trouxa feita de uma peça de cobertor branco, amarrado num nó feito com as quatro pontas. Encerrado ali, ia uma jarra de louça. Uma lata redonda com tampa, cheia de farinha de mandioca. Também uma rapadura, uns pedaços de carne assada. Um embornal de vísceras de veado, abastecido de água friinha de dar gosto. O chofer deu breque no monstro que roncava, bem ao lado das duas criaturas, indefesamente surpresas. Depois dum cumprimento, a carona oferecida. Às duas mulheres, de bom grado aceitaram. O destino, os mesmos não eram. Na metade do trajeto ficariam. Mãe e filha indo estavam pro Sítio Umburana Doce. Pra casa de comadre Maria Virgínia, que tivera mais um filho. O décimo segundo na contagem total, o oitavo varão.  Assistir-lhe-ia na convalescença, no resguardo. Era sempre assim, todo ano. Uma, a cada resguardo, assistia a outra. A paisagem deixou de ser ameaça, de vida e morte, passou a ser vista sedutora. Boa pra deitar os olhos quase cerrados, no mundão de mata e plantações. E correr a amamentar os sonhos. Ver crescer, até que ficassem fortes, robustos, preparados. E caíssem na lapa do mundo, sem dó, nem pena. A se aventurarem com gosto, como quem coloca farelo pra porco, milho pras galinhas. Amanacy mais jeito tinha pra criar galinha e porco, do que gente. E preferia mil vezes cuidar duma tarefa de roça de feijão e milho verde, do que suplantar arado de carretel, linha e agulha na máquina de fiar.   
  
Morua-ru-ani o índio do cavalo negro, se havia sentado no alpendre da casa de dona Virgínia, dali a pouco a tarde viria se despedir, dos seus olhos repuxados. Manancy quis saber o que o irmão de pele buscava ali. Viera à procura de sua descendência. Era um remanescente dos Yaganos. Da antiga tribo de índios da Terra do Fogo. Tinha esperança de um dia encontrar seus irmãos. Buscava onde fora parar os seiscentos nativos Yaganos, da Terra do Fogo. Os bravos guerreiros que ao tentar enfrentar o cão de Vanuatu, na Vila Ushuaia tragados que foram pelo hálito do feroz canino. Morua-ru-ani contou toda a história, a mesma contada de geração a geração pelos seus avós. O extraordinário desaparecimento marcara para sempre a história deles. Foi como se a terra tivesse engolido os bravos guerreiros. O mais incrível era que tudo tinha uma explicação de ser. Era no vaso da Catarina que Morua-ru-ani poderia encontrar o segredo do grande mistério do desaparecimento dos guerreiros de seu povo. O índio sentia, estava a um passo de ser desvendado o misterioso fato. Contava claro, com seu amigo Tagor que se dispusera a ajuda-lo. Também um bando de ciganos que estavam arranchados nas imediações.

Os aldeões estavam numa comoção só. Estavam decididos, se organizariam para destruir Vectro. Foi consternador ver a vila inteira, ir enterrar seus mortos. E juraram vingança. Havia entre eles, um, chamado Bento Benzedor. Era o conselheiro da vila a quem os camponeses sempre recorriam pra resolver contendas, os litígios, e situações semelhantes aquela. Foram exatas, trezentas pessoas, mortas. Trezentas vidas ceifadas. Entre homens, mulheres e crianças. Dizimadas por um único golpe do maligno Vectro. Houve um cerimonial de entrega das vidas dos que iam combater, e pedido de sorte a Deus. Precisariam de muita sorte, para o que iriam fazer. Os homens da aldeia eram cerca de mil. Porem não se podia contar com todos. Entre eles haviam velhos e doentes. Mais de duzentos, dentre eles não tinham forças para combater. Tagor e o índio passaram duas semanas dando instrução de guerra, treinando os moços da aldeia que iam lutar contra Vectro. Tagor idealizou e a eles contou, qual seria seu plano. Teriam que localizar e atrair Vectro para uma cilada. Propor uma luta, desigual, entre o Transformer e apenas um aldeão, um garoto apenas. Seria como nas Escrituras Sagradas, o episódio do pequeno Davi contra o gigante Golias. O local do embate estrategicamente um desfiladeiro dentro do vaso, e quando o alien estivesse debaixo da armadilha fariam descer sobre ele uma descarga de pedras grandes, toras de madeira. E mais um tacho de azeite quente. Era torcer para que tudo desse certo.

Pra ganhar as garrafinhas contendo água, e terra de Israel, a história que o padre contou a Tagor foi a seguinte. No tempo que padre Sigismundo Alencar esteve à frente da freguesia do Crato e Juazeiro do Norte, no vale do Cariri, no estado do Ceará. Um bando de cangaceiros andava espalhando terror por toda chapada do Araripe. O chefe do bando, um galego cabeludo, por nome de Herculano Novaes, que tinha por apelido Cascavel. Por onde passava um rastro de sangue e destruição deixava. Coronel Marcolino Rodrigues de Miranda, homem rico e poderoso de grande influência política na região. Era pai de Maria Serafina da Soledade, uma menina de seus catorze anos. Numa das investidas do bando de Cascavel, a filha do coronel que estava passando uma temporada na casa da tia, Teodomira Rodrigues, foi raptada pelos cangaceiros. O coronel formou um contingente de jagunços e foram ao encontro do bando. No confronto os bandidos salteadores escaparam ilesos. Enfurecidos, dias depois, atacaram uma das fazendas do coronel, onde fizeram muitas baixas. Levaram armas, suprimentos. Atearam fogo na casa grande. Mataram homens da confiança do coronel. A filha do homem, mantiveram como refém. O coronel ajuntou os varões da família, filhos, sobrinhos e tios da filha. O que tinha de homens, e mais uma volante da polícia, e foi em perseguição aos bandidos. Por meio de informação dum ‘coiteiro’ localizaram os facínoras. Estavam enfurnados numas locas de pedras, conhecido por “Boca das Cobras”, as margens do rio Salgadinho, no sopé da serra da Boa Vista. Estavam encurralados, pois havia uma só saída. Padre Sigismundo, e todo sertão, ficou sabendo que o coronel Marcolino deu um ultimato ao bando, que soltassem sua filha, ou ia invadir o local, e que não ia ficar um só do bando vivo pra contar a história. Resgataria sua filha nem que fosse a nado, num rio de sangue. Os bandidos ameaçaram matar Maria Serafina se isso acontecesse. Padre Sigismundo, a cavalo, imediatamente partiu pro local, para intermediar uma trégua. Se dispôs a ser moeda de troca, e tornar-se refém no lugar da menina.  Cascavel aceitou, mas ao se aproximar, o crucifixo no peito do padre, atingido pelo sol, refletiu um brilho, que o chefe dos cangaceiros pensou ser uma arma de fogo, e atirou. Do nada, apareceu uma cobra jiboia de vinte metros que dum bote engoliu  Cascavel. Isso fez Tagor lembrar a passagem bíblica, em que a cobra do faraó foi engolida pela de Moisés. O padre milagrosamente foi salvo, pelo crucifixo que recebeu o tiro. Atordoados os demais cangaceiros fugiram.

O índio dizia que a história do desaparecimento dos seiscentos homens do seu povo, se fundia com o surgimento de um grupo de ciganos naquela região. Isso data do século doze depois de Cristo. Como explicar tal semelhança, aqueles homens falavam dialeto próprio. Tinham a fama de ladrões e salteadores. Eram fortes no porte físico, e de feições belas. Para ganharem algum dinheiro para seus sustentos se apresentavam nas aldeias com exibições circenses, onde feitos fantásticos realizavam com o uso da força bruta, truques de magias puramente indígenas. Com uma marreta, quebravam pedras enormes colocadas sobre o peito de um deles. Com a força dos cabelos, e das mãos freavam uma parelha de bois de arado, ou apenas com as mãos estancavam o repuxo de quatro cavalos de corrida, dois para cada lado. Mas sempre foram maus vistos pelas sociedades feudais. Havia os que diziam que eles provinham dos espanhóis. Deles, teriam ganhado o apelido de “Gitanos” outros diriam que sua descendência era Árabe, e ainda indianos. Houve quem afirmasse categoricamente que seriam descendentes de Caim, irmão de Abel da estirpe de Cam. A eles também uma antiga lenda hindu atribui-lhes serem os forjadores, ou ladrões, dos pregos da cruz de Cristo. Motivo pelos quais os obrigariam a vagar pelo mundo.

Tagor partiu ao encontro do pai de Joana Antonieta. Encontrou-o dentro de uma caverna escura. Na verdade não era mais ele corpo e alma. Só o espírito. Era noite, e todos os dias era noite pra ele. Não podia sair dali. Simplesmente não conseguia. Andava por intermináveis corredores escuros. Quando ficava cansado parava e acabava dormindo. Procurava um lugar mais ameno. Tendo por cobertor a escuridão. Era uma caverna úmida. Do teto o farfalhar das asas dos morcegos sobrevoando sua cabeça. Embalava seu sono, o chiado das corujas, som  horripilantemente aterrador. Uma goteira que parecia não acabar nunca, explodia dentro da cabeça. De vez em quando ouvia como um choro de uma criança, uma menina. Talvez perdida, dentro de algum túnel, daquela caverna que não tinha fim.  Tagor percebeu que ele não tinha vontade de conversar. Talvez tivesse vergonha do que fizera em vida. Mas se contasse quem sabe não aliviasse o peso da consciência. Quem sabe Antonieta lhe perdoasse. Disse, sem falar palavra. Estava com muito remorso pelo que fizera a Antonieta. Em vida, a abandonara, com a mãe sozinha e doente. Antonieta tinha apenas três anos de idade. A mãe de Antonieta morrendo lentamente consumida pela peste negra, que quase dizimou a Europa. Antonieta sendo levada pra ser criada pela tia no subúrbio de Paris. Antonieta não lembrava nada dessa fase de sua vida. O pai no entanto sim.

Marcos, o primeiro menino das bicicletas, ficou sabendo de Milu, a gata mãe de Derick. Estava num  abrigo para idosos chamado São Vicente de Paula, próximo ao santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, em Santana do Ipanema. Sob a guarda de dona Lourdes, que alimentava e cuidava dos nove velhinhos que lá residiam. Milu queria saber do paradeiro de Derick, de Bola de Gude e Chiclete seus irmãos. A gata ficava o tempo todo no colo de dona Nenen, na verdade dona Gumercinda Rodrigues que dizia ser irmã do coronel Rodrigues da Rocha, e que ficou cega, aos 80 anos, de catarata. Jurava, porém, ter sido obra dum cangaceiro apelidado de Cascavel. Milu era os olhos da cega. Esticava o pescoço se alguém se aproximava. Miava manhosa se vinha gente conhecida, miava ameaçadora se não. Miou, agora mesmo, arregalando os olhos, arrepiando o pelo.


Fabio Campos, 21 de Fevereiro de 2017.

O PADRE E A SERPENTE (23º Episódio de T.F.)


O sol que descia do céu era o de meio dia. Sobre uma pedra de calcário, dois frasquinhos reluziam. O brilho chegava a doer nos olhos de quem se aventurasse encarar. Duas miniaturas de garrafa, ali no meio da aridez do deserto, semelhavam dois olhos da serpente de jade. Uma refletia azul e outra amarelo. Na verdade eram de vidro comum, devido ao conteúdo que encerravam refletiam tais cores. Um homem de meia idade, trajado de árabe se fazia ali. Mais parecia um alquimista. Estava sentado, debaixo dum pé de catingueira que malmente fazia sombra suficiente pra uma pessoa se abrigar. Mesmo assim ele tentava se proteger na ínfima sombra. Umas cabras aqui e acolá catavam, sobre o lajedo, o que comer. Com rapidez incomum, quase nervosismo apreendiam vestígios de vegetais, que seus faros apurados conseguiam detectar. Mastigavam freneticamente seixos, e capim seco. E suas vidas arriscavam tentando alcançar os olhos da catingueira. Único ponto verde no entorno.   

O homem estava como quem esperava. E esperar pra quem estar debaixo do sol quente, num sertão brabo não é nada animador. Aliás é até mesmo desesperador, de dar nos nervos. Sabia ele, que o que esperava viria. Só não tinha certeza se do céu, ou de debaixo da terra. Se desse sorte, talvez viesse  simplesmente andando sobre ela. O homem teve sede, e resolveu procurar algo para aplacá-la. Chegou debaixo dum umbuzeiro que só tinha galhos secos. Lembrou-se das Santas Escrituras “A Figueira amaldiçoada. E indagou-se no seu íntimo: “Mas porque Jesus amaldiçoou-a, se não era tempo de figos? Acontece que no Oriente se colhe figos em junho, e o evento provavelmente deva ter ocorrido em abril. Era de se esperar que houvesse ao menos frutos verdes. A esterilidade da árvore representava a improdutividade de Israel, que o mestre irá pronunciar no dia seguinte: “Eis que vossa casa vos ficará deserta. (Mateus 23:38)” 

Desembainhando sua faca peixeira o homem pôs-se de cócoras na base do caule. Com a faca feriu o lenho da árvore. Do corte extraiu casca e entrecasca até chegar ao miolo. Descobriu o que queria,  que havia umidade ali. Daí pôs-se a cavar freneticamente até chegar a raiz, até encontrar com muito esforço um tubérculo que parecia um inhame. Mordeu até conseguir um líquido muito parecido com água.

Morua-ru-ani chegou. Era um índio. Montava um cavalo preto e saudou o arqueólogo das Arábias com uma flexão do braço e antebraço formando um “éle” ao tempo que dizia alto: “Ha-yá!” O homem respondeu fazendo o mesmo gesto e pronunciando igual saudação, só que em tom mais moderado. Um índio navajo do rosto de pedra, em pleno sertão. Trazia uma tira de pano vermelho prendido na cabeça acima das orelhas passando pela testa. E a cabeleira negra se esparramava até os ombros. O cavalo tinha só uma corda de caruá que passava por cima das narinas e olhos. Uma espécie de cabresto. O índio montava no cru. Vestia uma roupa toda de lona cáqui que cobria-lhe peito e pernas deixando as vistas, os músculos vigorosos dos braços. Em sua própria língua o índio perguntou pelos demais. O homem que até então se mantivera calado com um resmungo diria, que até o presente momento, somente eles haviam chegado.

A irmã de Tagor estava entre as mulheres da tecelagem. Era um galpão enorme, cheio de teares onde centenas de mulheres fiavam cada uma num tear. Fabricavam linha que era conduzida por meio de roldanas pra outra parte da fábrica onde homens faziam o serviço mais pesado, a manufatura dos carreteis e embalagem. Era tudo muito rudimentar. A irmã de Tagor fora parar no ano de 1915 na fábrica da Pedra, sertão de Alagoas. Uma invenção do visionário Delmiro Gouveia. O que idealizou a segunda usina hidrelétrica do Brasil, para movimentar as máquinas de sua fábrica de carreteis de linhas. Colocou luz elétrica na vila dos moradores da fábrica. E fez isso praticamente sozinho. Como tinha ido parar lá naquele lugar, a irmã de Tagor realmente não sabia. Todos a conhecia pelo nome de Antonia da Apresentação. Como não sabiam ao certo de onde viera. Por ser polida, educada, e bela nos trajos e nas feições, os que a acharam deram-lhe esse nome. E garantiram que a encontraram desmaiada, bem no meio do vaso da Catarina. Se não fosse resgatada, àquela altura por certo teria virado pasto de cães do deserto, dos lobos Guarás e das aves de rapina. Realmente uma mulher muito bonita, acabou acompanhando um grupo de retirantes vindo do sertão da Bahia. Achavam que era muito provável que ela tivesse sido abusada por uma turba de ladrões e salteadores e daí tivesse ficado perturbada. Era o que deduziam. No entanto isso não a impediria de alistar-se na frente dos operários pra trabalhar na fábrica de tecidos de Delmiro Gouveia e por isso estava ali. Ganhara uma família, um casal de idosos a adotara. E se ajudavam. Sonhava encontrar Tagor, certa feita jurou tê-lo visto no meio da feira livre, num dia de sábado. Em vão tentou alcança-lo, desapareceu no meio do povo.

De repente a terra foi sacudida. O tremor fez Tagor se lançar em busca das duas garrafinhas que milagrosamente conseguiu resgatar intactas. Duma imensa cratera aberta no meio do sertão surgiu um robô como se fosse um totem de puro ouro. Um transformer, pelo porte devia ter uns três metros de altura, totalmente de ouro maciço. Ouro em estado de plasma, pois era como se possuísse pele humana, só que numa textura semilíquida do metal precioso. Possuía músculos, vértebras, ossos descomunalmente de ouro. Os olhos não tinham brilho e a boca e nariz eram como se não tivessem as cavidades naturais que os humanos possuem. Mas era vivo! Com sua voz de trovão falou: “-Eu sou Vectro o chefe dos alienígenas. Venho aqui para defender meus interesses, a descoberta de novas minas de ouro neste lugar. Fiquei sabendo de uma reunião. Porem vejo que os demais convocados ainda não chegaram, aproveitarei então pra fazer um reconhecimento do lugar”. E saiu deixando quase perplexos, o índio e Tagor. De fato a reunião só aconteceria se os demais convivas chegassem. Aguardavam a chegada de Antonieta, os três meninos das bicicletas, mestre Lucindo e Rafael. Derick e Pietro o italiano, estes juntaram-se a Seu Jorge, seguiram viagem no dirigível. Pietro fez uma loucura, cortou a capota do Fiat Uno tornando-o um conversível e acoplou ao dirigível que teve mais um motor de propulsão a impulsioná-lo. Mas que ficou ainda mais esquisito, isso ficou.

Vectro não precisou andar muito, pra chegar a uma aldeia. E logo foi cercado por muitos aldeões que se puseram a admirá-lo. Todos queriam tocá-lo. A criançada eram os mais exaltados. Queriam saber seu nome, de onde viera. Se viera pra ficar. E qual sua missão. Aquele povaréu humilde, como que carecia de um ídolo. Tagor via tudo pela câmara de seu “drone” novamente lembrou as Sagradas Escrituras: “O Bezerro de Ouro. Vendo que Moisés tardava a descer da montanha, o povo agrupou-se em volta de Aarão e disse-lhe: “Vamos: faze-nos um deus que marche à nossa frente, porque esse Moisés que nos tirou do Egito, não sabemos o que é feito dele.” Êxodo 32:1”  Talvez vissem no alien a única esperança de salvação. Talvez o herói de que necessitavam pra salvá-los de suas mazelas, de tanto sofrimento. Aquela abordagem inesperada. Aquele povo de raça inferior, para Vectro não passavam de vermes. E isso acabou irritando-o. Não deu outra, explodiu em cólera e de sua boca lançou labaredas de fogo sobre eles, e dos braços potentes destruiu e matou muitos.

O coronel Libório Matulão foi até a casa do padre Bonifácio Carnaúba juntamente com Tagor. O padre perguntou-lhe: “Senhor Tagor, o senhor trouxe a encomenda?” Ela fez um aceno de cabeça confirmando. A tal encomenda era justo as duas garrafinhas que o explorador aventureiro imediatamente colocou em cima da mesa e mesmo sem o reflexo do sol continuavam brilhando. Tagor garantia que continham de verdade, água do Rio Jordão numa, e um pouco de terra do jardim do Getsemani, noutra. Tagor daria de presente ao padre se lhe contasse uma história que tinha interesse em conhecer. Era o causo de outro padre, do sertão do Cariri, que vivera naquela região no fim do século dezenove. E que tem a participação dum cangaceiro, e uma cobra sucuri de vinte metros.


Fabio Campos, 14 de fevereiro de 2017.