A CORDA E O CORDÃO



A montanha ao fundo muito longe, as casas rústicas muito perto. O mato, o cheiro de mato, molhado. O tempo era outro. O barro, pondo muito de sua cor nas coisas, na tez das coisas. Uma mulher com rosto de irlandesa. Uma menina triste de cabelos crespos, com meia dúzia de pequenos cachos. Os olhos negros, numa tristeza de dar dó. Um cenário que tinha tudo pra ser unicamente de mulher, tinha homem. O sol felizmente não perdia a graça, diante do que se apresentava. Simplesmente tinha o domínio. A cidade se houvesse seria muito longe. Distando dali horas de pensamento, de tão longe. Era como um sonho ir até lá. O vento inflamava-se de solidão. Um silêncio descalço ribeirando pelos cantos, ia tangido pelo balido das cabras. E tudo estaria imprestável não fosse dia. A luz do dia era tudo. Um poço, muito tinha pra dizer, mesmo permanecendo calado como estava. O que será que havia naquele lugar? Tudo ali cheirava a cansaço. Tudo parecia muito, muito cansado de ser o que era.

Outra montanha, muitos, muito pensar distante daquela. No meio da planície um orfanato. Construção rústica no meio do deserto. O que aquele orfanato foi fazer naquele fim de mundo? Por que não se dava pra ouvir o barulho das crianças? Onde fora parar a algazarra? Uma mulher de meia idade apareceu à porta, trazia um copo na mão. Havia água naquele copo. Água límpida, cristalina das mais desejadas pelo que tem sede. Dois braços abraçavam um corpo magro. A menina pretinha com o cabelo cheio de pequenos cachos, presos por fitas coloridas. Por que estava ali? De nada sabia, que outros, que jamais conhecera, tinham pensando um destino pra ela. Nada entendia do que acontecia. Entender era o que menos importava. Ter que ficar, redimensionar sofrimentos. Jamais imaginou outro mundo que não fosse o que sempre vivera. Brincar com os irmãos no cair da tarde. Depois de um dia corrido. Cheio  de panelas pra lavar, e água no poço pra ir buscar,  depois de varrido o terreiro de casa. Calunga de pano pra brincar no cairzinho da tarde. O que estava pra vir, fosse o que fosse, seria novo. Encararia qualquer realidade nascera pronta pra isso. Desde que não houvesse alguém igual o pai no caminho. E tudo já estaria valendo a pena. Não queria que lhe batesse e que agredisse tanto, várias vezes, muitas vezes durante o dia, tão desnecessariamente. Pensou nos outros irmãos, como estariam.

Se dependesse dela, ninguém jamais ficaria sabendo o que acontecera. Mas era tão forte que vinha. E vinha em forma de relampejos. Os batentes sujo de sangue. O facão ensanguentado na mão reluzindo. Os gritos, abafados pelo trovão. Os raios clareando os pingos que lavavam o rosto. A chuva aumentando, o terraço inundado. O corpo inerte do seu irmão sendo arrastado pelos braços, os calcanhares, as pernas cavando um sulco, fazendo um rastro de lama que seria apagado pela água da chuva. Lá no canto da cerca havia uma espécie de tablado que a mãe usava como batedor de roupas. O corpo franzino do menino foi arrastado até lá. Estendido sobre o lastro, os braços pendidos, as mãos balançando. O facão erguido furando o bucho da noite. O braço longo, longamente musculoso, negro. Donde estava só conseguia ver as costas do pai. As costas molhada desnuda, a pele escura luzidia. Um tiro ecoou. O projétil fez um furo próximo à pá das costas. Saiu no peito aspergindo sangue na relva. Viu tudo, pasmada viu quando o pai tombou sobre as próprias pernas, ficou de joelhos, pra depois despencar de bruços. O golpe mortal da folha de aço que seria pro menino só feriu o ar. A mãe na soleira da porta segurando a espingarda, o cano ainda fumegante. Só a coragem de mãe pra por fim ao pesadelo de uma noite macabra.

A foto da garota sorridente era foto de formatura. O traje negro entusiasmava ainda mais, à foto preto e branco. O capelo dando ar de superioridade. Os melhores anos da sua vida passara ali. Dentro da universidade. Se pudesse viveria tudo de novo. As colegas sabiam de sua história da infância sofrida. O cordão preto da beca cruzava o colo, e terminava num botão também preto preso a uma franja negra. Acariciar com os dedos aquele cordão a fez voltar no tempo. Lembrou de um novelo de cordão que o pai tinha guardado dentro de sua cesta de tralhas. Tinha o maior ciúme dele. Não tolerava que ela e seus irmãos brincassem com ele. O barbante de algodão era usado pra muitas coisas. Para construir o aprisco. O cordão serviu pra marcar o alinhamento do estaqueamento. Também  serviria de prumo, e pra medição. O cordão, segundo seu pai, era uma espécie de amuleto que só devia ser usado pra algo muito significativo. Inaceitável que fosse alvo de futilidades. E pro pai empinar pipa era algo muito inútil. Achava até que trazia maus agouros pra aldeia. O irmão transgredira sua regra e pagaria com a vida tamanha desobediência. Primeiro levou uma surra de cordas na frente dos demais irmãos. Aquela corda tinta do sangue meu e de meus irmãos, ficava pendurada na comieira da casa como um troféu. Éramos obrigados a assistir perfilados a barbarie. O pai descarregava toda sua ira covarde em pobres indefesos. Dizia que era para que servisse de exemplo. Foram tantas as pancadas que o menino acabou desmaiando. Como gostaria de ter o poder de apagar da mente aquelas lembranças. Esquecer todas as coisas ruins da infância, Mas elas sempre vinham. E uma das piores recordações, chegou junto com uma lágrima. Num vão único do piso de barro batido da casa, forrado com esteiras de palha, dormiam ela a mãe e os sete irmãos. Sendo ao todo quatro meninas e três meninos. Numa determinada madrugada acordou sendo bolinada pelo pai. Uma de suas mãos tapava-lhe a boca pra que não gritasse, e explorou seu sexo. Naquela noite foi brutalmente penetrada. A mãe nunca soubera disso. A depender dela jamais saberia. Sabia que se contasse correria o risco de morrer. Isso ele havia lhe prometido. 

Como uma espécie de prêmio de consolação, do pai ganhou um cordão vermelho, de muitas voltas, enfeitado com miçangas nas pontas e tinha um pequeno búzio preso. O pai lhe deu, pendurando ele mesmo ao pescoço, e era uma menina de dez anos apenas. Deu-lhe dizendo que era pra mantê-lo sempre. E que por nada devia o perder. Só depois disso percebeu que cada uma de suas irmãs também tinham cordões pendurados no pescoço, e que eram de cores diferente. Da irmã mais velha era verde, as demais eram amarelo e azul. Numa determinada noite acordou e fingiu que permanecia dormindo. De olhos serrados conseguiu ver o pai abusar da irmã mais velha. E foi assim nas outras noites. Descobriu que para cada cor de cordão, ele abusava de uma irmã, num determinado dia da semana.

Naquela noite na América sonhou um sonho atribulado. As lembranças acabariam influindo nos sonhos. E viu um homem negro que usava um cavanhaque igualmente negro. Ele entrou na aldeia de sua infância, e portava um belo rifle. Suas roupas tinham, a camisa e a bermuda, partes feita de couro de leopardo. A copa do chapéu era circundada por uma tira de couro de urso. No colar que trazia pendurado no peito havia dentes e pequenos ossos de animais, de várias espécies, e não duvidasse que dentre aqueles houvesse ossos humano. O homem não entrou na casa. Preferiu sentar-se num canto estratégico donde pudesse ver a entrada da aldeia. Talvez temesse ser surpreendido. Temia os muitos inimigos que tinha. E conversou muito com o pai. E fumaram cachimbos, abastecidos de ervas aromáticas. E davam aos pequenos para tragarem, e riam ao vê-los caírem grogues no chão batido da aldeia. O pai negociou com o homem ervas, e a moeda de troca era permitir ao estrangeiro fazer sexo com a mãe. Como podia ceder a própria mulher pra deitar-se com outro homem, em troca de plantas alucinógenas?

O homem quis saber se a água do poço da aldeia era de boa qualidade. O pai diria que não, mas diria que havia outro dentro da mata cuja água era pura, cristalina, saborosa. O estrangeiro quis conhecer. Uma mulher com cara de irlandesa, na verdade uma negra albina, passava o dia na borda do poço. Todos acreditavam que quem nascia com a pele clara na aldeia possuía o dom de afastar demônios. Por isso elas protegiam os mananciais d’água. Em troca de algum alimento emprestava baldes de ferro, carcomidos nas bordas pela ferrugem e cordas velhas, aos que quisessem tirar água. O estrangeiro por um pouco de farinha alugou aqueles apetrechos e com o pai adentrou a mata. O poço era profundo da borda em diante breu. Jogando uma pedra dava pra ouvir o eco do espelho d’água sendo importunado. O pai tinha um plano macabro. Assim que o estrangeiro debruçou-se pra ver se conseguia ver o fundo, foi empurrado. Seu corpo despencou dentro do poço sucumbindo num grito apavorante. O pai sorriu um riso diabólico, e tomou posse do objeto de sua cobiça, o rifle do estrangeiro. 

O pai foi enterrado num lugar perto do aprisco. Talvez fosse ali mesmo que quisesse um dia ser enterrado. Onde tantas vezes amanhecera embriagado. Ouviria sempre o chocalho das cabras a cada manhã. Sua cova foi circundada com uma corda vermelha sanguínea. Sangue do seu sangue, por ele próprio derramado. Dois gravetos, tomaram a forma de cruz. Unidos transversalmente por um longo cordão de algodão, a não sobrar um pedaço que fosse. Sobreposta linha sobre linha, tantas vezes a formar como se um coração. Findado num nó de ódio e desgosto. 

Fabio Campos 19 de Agosto de 2016.  

*P.S. A Gravura que ilustra este Conto, é uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, que está na Igreja da Mesma, em Paulo Afonso - Bahia.  

JEREMIAS, ONDE ANDARÁ?





Olhando assim, talvez não desse muito pra saber se era dia ou noite. Isso acontecia porque era inverno, e aquele, vinha da alma. Jamais se acostumara com aquelas mudanças. Tudo a dar-lhe imensamente nos nervos. As nuvens fuliginosas, descendo ameaçadoras. Diluindo-se em tons grafite, trazendo gosto de papel carbono. E o frio se apossando de cada uma das vértebras. Escalando a espinha dorsal, petrificando os sentidos, desbotando as vontades. A rua, inexplicavelmente longa indo até o infinito. Para o além, dava pra ver o brilho do sol. Mas a quentura, impossível sentir. Os prédios se agigantavam tanto que chegava a se curvarem, alucinadamente, como se quisessem sufocar o céu. Portas e janelas, olhos monstruosos a observarem para além da mente, do homem que passava. Incólume avançava. Os demais seres que em sentido contrário seguiam eram como máquinas. E deslizavam na calçada, como se debaixo dos pés tivessem rolimãs, ou andassem sobre esteiras rolantes. Todas as crianças, como em transe haviam partido. Quem sabe para um país muito distante marcharam. Muito provável se chamasse “Mundo dos meninos”.

O homem parou, não parecia nenhum pouco cansado. Talvez precisasse refletir. Sentou-se ao meio-fio. Pouco se importando com o que os outros pensavam, a seu respeito.  A calça escura, os sapatos pretos, o blusão também de couro.  Fumante, tudo nele cheirava a nicotina. As unhas, os dedos, os cabelos, as narinas, e mesmo a respiração. Tirou um frasco de dentro de um bolso interno do blusão, parecia de perfume. Era uísque. Sorveu um trago. Acendeu um cigarro, não sem antes praticar o quase involuntário gesto de bater com a ponta na caixa de fósforos. A fumaça azulada desprendida lhe envolveu como numa aura mágica, soberana. Os olhos vermelhos a dizerem que a noite passada ocorrera em claro. Precisava fazer a barba. Tomar um bom banho, uma ducha quente, revigorante. Enxugar-se com uma toalha felpuda, cheirando a coisa limpa. Precisava repetir todo um ritual de banheiro. Achava que aquilo ajudaria a devolver-lhe, ainda que ilusória, a sensação de paz. E de rearranjo do caos que se instalara dentro de si. E que parecia não haver prazo pra acabar. Pelo menos hora e meia ficaria sentado na privada, sem vontade de fazer nada, nenhuma necessidade fisiológica. Simplesmente porque gostava de perder tempo sentado ali, evacuando pensamentos. Vasculharia os bolsos da calça, encontraria um folder, desses que se nos são entregues nas portas das lojas de eletrodomésticos. Passando a vista por cima, sem se ligar no preço das ofertas, pois era o que menos interessava. Admiraria o trabalho. As cores, a arte gráfica. Quantos profissionais teriam se envolvido naquele trabalho?

Lembrou de Lucas um amigo de infância e pré-adolescência. O que estariam fazendo naquele momento? Talvez não mais vivesse, nem nunca mais se veriam. Também Zé Maria. E Samuel? Outros amigos de infância, e de início de juventude dos quais lembrava agora. E Rosinaldo? E Heleno? Onde andaria Tereza sua primeira paixão da terceira série? Jamais seria sua namoradinha. Observava-os como numa espécie de túnel do tempo. Revia-os como em vídeos e fotos que nunca, jamais tivera feito, mas que estavam lá. Perpetuados dentro de sua mente. Quantos dos seus amigos de infância se havia tornado militar? Ainda outros Lucas, outros Samuéis no mar da vida cruzariam seu caminho. Cada um porém com suas particularidades, muito diferente uns dos outros. Alguns poucos como ele se tornara artista, cantor, e intérprete. Soube até de um que virou escritor. Considerado, por parte de alguns familiares, bichos estranhos.  E eram mesmo,  mudavam de humor com a inconstância dos ventos. De muitas vezes não aceitarem nem a si mesmo.

Nunca entendera de quando estivera casado com Marlene, todas as vezes que estava a pia, lavando as louças da janta as mesmas lembranças vinham. Sempre das mesmas pessoas. O amigo Fausto, um policial, uma amizade tardia, da fase adulta, com que havia se encontrado muitos anos depois. Encontrou-o casado com Viviane, ou talvez se chamasse Mirian sua esposa? Lembrava sempre da queda de bicicleta que Fausto levou e quebrou um dos incisivos. E desde então seu sorriso foi outro. Ficou com cara de menino levado. Os cabelos e os olhos espichados como de oriental. No flagrante das suas lembranças ele estava sempre sorrindo e mostrava os dentes desarrumados.

Naquele instante se perguntou. Se alguém já não teria se dado ao trabalho de querer saber que imagem os amigos do passado teriam guardado de si mesmo? Einstein, o grande físico. Será que teria gostado da quão excêntrica e irreverente imagem, estirando a língua pra humanidade, com a qual ficaria eternizado? Lampião, o rei do cangaço, apesar de não ser tão culto quanto o cientista austríaco. Preocupou-se em deixar pra posteridade uma imagem bem mais sóbria. Contratando inclusive um fotógrafo para tal finalidade. O que esperava que lembrassem dele pelo jeito irreverente, boêmio, amante da paz? Não fosse aquele o momento certo pra se fazer uma retrospectiva da própria vida. Ao menos achou por bem fazer uma auto avaliação.  Se dando conta àquela altura da vida, que não era mais o rapaz que tanto insistia em permanecer dentro dele. Ainda compunha belas músicas. Tinha que admitir o corpo, no entanto, já não era o mesmo. A cabeça funcionava a mil. O cabelo, a barba tornado grisalhos. A visão já não correspondia como antes. A frequência com que fazia sexo a cada ano silenciosamente diminuindo. Os problemas de saúde pouco a pouco aparecendo. Quase que por necessidade leu artigos sobre a próstata, a diabetes, a pressão arterial. Nesse ínterim os shows foram escasseando, a fama de outrora assustadoramente se esvaindo. Antes que a depressão com seu ataque mortal se instalasse, como um golpe de mestre investiu além do álcool. Passou a usar anfetaminas, uma droga leve. Até certo ponto aceitável, fazia parte. Afinal tão comum no meio artístico. Servia de estímulo, até mesmo pra manter a euforia que o glamour do palco exigia.

Sentia muita saudade de alguns anos tão legais do passado. Tão intensamente vividos, e que agora não passavam de cinzas como aquelas do cigarro apagado na sarjeta. A velha calça jeans, desbotada. O orgulho de viver num país tropical, de ter tido um fusca e um violão. Sol e praia o ano inteiro. Do desapego a bens materiais. Achava bacana a filosofia de vida: “Viva a paz e o amor e deixe viver”;  “Faça Amor não faça Guerra”; “Go do Back to Bahia”; Art Pop; Woodstock; tatuagem do símbolo hippie no delta, surfar em Saquarema, curtir Búzios ao menos uma vez por ano. Como doía ver que de tudo isso, sobrara somente as ruas? Voltar pra clínica de recuperação jamais... Preferia a morte. Não se achava uma pessoa ruim, não se considerava do mal. Os filhos não o entendiam. As ex-mulheres também não, o deixaram. Se sentia só, injustiçadamente só. Sempre se achou um cara do bem, amante da paz, da natureza, do amor livre.
Sem saber direito porque veio a lembrança de Jeremias “O Bom”, personagem do chargista Ziraldo que ilustrava a sessão de humor da Revista “O Cruzeiro”. Isso na década de setenta! Num misto entre perplexo e feliz dos seus lábios saltou uma quase resignada constatação: “Poxa! Como estou ficando velho. Afinal sou do tempo do Pasquim!” Das charges de Jaguar, Ziraldo, Fausto Wolff, Henfil com sua “graúna” o “Fradim” Paulo Francis e seus textos satirizando o governo do regime militar no poder, Millôr Fernandes. Tropicalismo, “Garota de Ipanema”.  Viu nascer o regime militar, crescer e tomar conta do país, mas também veria cair. 

Só agora entendia por que Jeremias era chamado de “O Bom” Mas pra onde tinha ido aquele jovem idealista? Aquele que por tanto tempo morou dentro dele? Aquele que um dia foi pras ruas, enfrentou tropas de choque, jato de gás lacrimogênio nos olhos, quase ficou surdo com as bombas de efeito moral. Levantou a bandeira da Une na porta da universidade. Considerado que era um subversivo. Porradas de cassetete de polícia da cavalaria. Cabelo grande, bolsa tiracolo cheia de panfletos contra o governo, a fugir pelas avenidas e becos escuros. Pra ser considerado subversivo naquela época bastava ser leitor do “Pasquim”. Logo era chamado de maconheiro, vagabundo, visto com maus olhos. E ser vinte quatro horas por dia investigado pela polícia. Quais filmes via, peças de teatro que assistia e livros que lia? E pronto seria preso. Ter os dedos todos borrados, deitar digitais nas fichas de prontuário do Deic. A famosa foto 3x4 de lado, frontal segurando a plaquinha preta com a data da prisão.

Num cartão amarelado guardado em armário de ferro, de enormes gavetões que deslizavam sobre trilhos. Quando eram fechados emitiam o som característico como grades se fechando. Um breve texto escrito à esferográfica descrevia o perfil, as tendências aos crimes e os delitos em que o prisioneiro se enquadrara. De certo uma frase mais estaria faltando naquele prontuário: “Este deliquente matou um homem. Ele mesmo. Daqui a uns 40 anos pelo menos.”

Fabio Campos, 02 de Agosto de 2016.

*P. S. A Gravura que ilustra este Conto é de NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO e se encontra na belíssima capela de São Francisco de Assis em Paulo Afonso- Bahia, construída em meados de 1965 pela C.H.E.S.F. 

JULHO, OUTRA VEZ...



Era julho outra vez. O quintal, o pé de manga alcançando as alturas. Resignada a goiabeira curvava-se ante o maioral. O pé de maracujá arteiro escalou os dois. Foi-se embora rameando-se pelo meio das majestosas fruteiras. Sempre que se falava em manga e goiaba faceira Paulina dizia: “-Na casa da vó Lourdes o pé de manga dá maracujá!” O tonel da bica, cheio às bordas de céu escuro. Um pouco menos ameaçador que o de lá de cima. Eduardo na ombreira da porta da cozinha conversava com a mãe Lourdes, enquanto os olhos corriam soltos visitando e matando a saudade de tudo o que havia pela frente. A carestia, tema principal da conversa vingou até que outros assuntos viriam à tona. Paulina, não mais queria ir pra creche. Chorava feito uma condenada, toda manhã a mesma ladainha. Já saía da cama chorando. Ter que tomar banho, o lanche matinal, escovar os dentes, vestir a farda, arrumar a bolsa, o martírio de todo dia. Ameaçou fugir um dia pra vir morar com a vó. Ainda bem que era julho, e assim ficaria um mês inteirinho na casa de vó Lourdes.

Casa de vó, casa dos pais, tudo de bom, tanto pros filhos quanto pros netos. De manhã poder dormir até mais tarde, o modo que a vó lhe acordava tão diferente do pai. O rádio ligado e o locutor mandando um abraço pra Júlia, fazendo declaração de amor pelas ondas de frequência modulada. A música de Belchior enchendo os cômodos, tantas outras lembranças voltando. “No corcovado quem abre os braços sou eu/ e as paralelas na rua tão nua/ como é perversa a juventude do meu coração/ que nunca sabe o que é cruel e o que é paixão...” Se bem que na cabeça rolava mesmo era Djavan, que combinava muito mais com aquela manhã fria. Boa pra ler um livro, tomar café quente, fumegante, numa xícara de porcelana. Os pés encolhidos debaixo dos lençóis do sofá da sala. Enquanto se olhava através da janela.  Ainda o rádio anunciou o desaparecimento de “Dublê” o cachorro pitibull de doutor Edmundo. Afonso viu o cão um dia antes, andando perto da Estação Rodoviária. Solto na rua não parecia tão ameaçador, de quando estava preso no portão. Vagabundo seguia pelo passeio revirando as lixeiras, aproveitando a liberdade tão o tempo todo negada. 

Dos retratos na salinha o que mais se destacava e impunha respeito era do vô Antônio que jamais conhecera Paulina. Dele o retrato e alguns pertences restara. E dona Lourdes apesar de tanto tempo passado lembrara saudosa das vezes que chegava da rua. O jeito próprio e único de colocar o chapéu no cabide, quase tão teatral. Com seu sorriso não totalmente declarado, apenas se insinuando pelos cantos da boca. Sentaria a mesa, sempre na mesma cadeira cujo respaldo dava as costas pra parede, o lugar de destaque, do chefe da casa. Se permitiria olhar demoradamente pra estante, os olhos fixos no retrato da família. Sempre que chegava o mesmo gesto. Inácia trazia uma xícara guarnecida de pires e colherzinha. O açucareiro, a garrafa de tampa negra, o bule com leite, o mantegueiro, uma faca, porta guardanapos, o pote de biscoitos, o paliteiro. Tudo já estava à mesa numa imensa bandeja inox. Perguntaria sobre cada um dos filhos, começando pelo mais novo. Tio Petrúcio disse um dia que vô Antônio tinha por hábito tomar um trago de aperitivo antes do almoço. Lembrou até duma marca do vinho que mantinha na cristaleira, vinho Raposa que trazia no rótulo um desses canídeos tomando vinho derramado duma daquelas garrafas engraçada. O cálice erguido pelas mãos de dedos nodosos, a aliança grossa porém sem brilho, os dentes amarelados do seu sorriso, os olhos claros também sorriam. Poderiam passar os anos porém jamais esqueceria aquela cena. Brinde solitário, a si mesmo. A vida era ao que brindava.

Paulina jamais imaginou que Eduardo um dia a levaria pra ver o rio. Lá estavam serenamente Eduardo, Paulina e o rio. O dia nublado deixava-os tristes, desmotivados, preguiçosos, Eduardo, Paulina e o rio. A ponte de pedras. Lembrou que dali mesmo quando era criança tantas vezes pulara pra alcançar as águas revoltas das cheias e enxurradas. Pensou e se tivesse que pular agora? Sentiu um certo receio, um temor. O que temeria? Talvez por sua própria vida, porque somente agora adquirira tal medo, não sabia. Naquele lado havia uma prainha, todas as vezes que fora ali sempre houvera meninos jogando bola. Estranhou que naquele momento não houvesse quase ninguém lá. A menina se aventurou a cata de umas conchinhas branquinhas na beira d’água, algumas quase enterradas na areia. Não teve como não molhar os sapatos, achou por bem tirá-los. Havia um homem sentado numas pedras, pescava com vara e anzol. Curiosa Paulina aproximou-se pra ver o que havia numa frasco que o pescador vez por outra remexia. Eram minhocas! E estavam vivas ainda! E se mexiam num pouco de terra molhada. O pescador deu-lhe num frasco um peixinho que a menina pegou com tanta ternura e carinho, e tão agradecida. Com a satisfação de quem acabara de ganhar o primeiro bichinho de estimação. Ao chegar a casa buscou no banheiro outra vasilha. A pobre piaba foi parar no pote que Eduardo usava pra fazer espuma de sabão pra fazer a barba. A menina achou que o peixinho havia ficado mais feliz no novo recipiente, na verdade agonizava, e morreu. 

As festas da padroeira. As novenas, o parque de diversão, o ápice das férias. Eduardo lembrava com uma ponta de saudade dos tempos idos. Os brinquedos tão singelos. Tudo tão simples, uns barcos que o próprio brincante tinha que desprender uma força enorme para pô-lo em movimento. As patinhas, umas cadeirinhas suspensas sob correntes num carrossel impulsionado por uma manivela, tracionada por mãos de dois homens fortes. A polia gemia gemido feito carro de boi na estrada agora abafado pela zoada reinante. O Laça-laça consistia em carteiras de cigarro sobre um tablado onde cédulas de dinheiro aderidas atraiam os fregueses que eram obrigados a ficar além dum cordel limítrofe. Também tinha a pescaria, uns peixinhos de lata atolado num caixote de areia, somente com a cabeça de fora e que deviam ser pescado daí se descobriria um número que equivalia a um determinado prêmio. Prêmio chinfrim: uma calunga, uma bola, um carrinho de plástico. A noite toda era um burburinho só. Os estouros de fogos de artifício, as guloseimas. O barulho da meninada, os balões coloridos, a música ensurdecedora. O estampido das espingardas de seta, o estouro na chapa de zinco, do tiro-ao-alvo. Todos esses sons ficaram para sempre imprimidos nos tímpanos, na memória da criançada. Jamais em tempo algum se apagaria. Os quitutes, as toldas cujas empanadas lembravam os movimentados dias de feira no sábado. Se chovesse, e sempre chovia, os transeuntes ali se amparariam.

Tio Petrúcio perguntaria a sinhá Lourdes a respeito dos meninos, se quando eram crianças se eram unidos. Vó Lourdes confirmaria que sim. Eduardo e Reginaldo, então, por serem o mais novos, eram feito carne e unha. Diferente de Rafael e Carlos Antônio. A idade próxima muito provável tenha contribuído pra isso. Coisa de só saírem juntos fossem a onde fossem. Ainda mais pra festa da padroeira. Se um ia, o outro também tinha que ir. De escolherem sempre os mesmos brinquedos para se divertir. Assistirem os mesmos filmes nas matinês. Lembrou que o pai comprou certa vez um paletó igualzinho pra cada um, diferente apenas na cor. Um bege outro azul claro. As calças curtas, os sapatos, as meias três quartos, brancas. O arremate era a gravata borboleta. E o corte de cabelo a moda soldado de cuia fazia com que ficassem parecidos, a ponto de muitos perguntarem se eram irmãos gêmeos.

Mas o mundo de voltas e nas voltas que o mundo dá tantas águas que o rio levou lavariam as pedras da ponte dos meninos irmãos. E de tantos amigos de escola. Foi numa maratona de carnaval, de muitos anos depois da época de criança. Eduardo e Reginaldo já eram homens feitos, já haviam casado eram pais de família. Mas como tornaram-se distantes, nem pareciam irmãos.  O frevo rolando solto na praça e eis que Cosmo amigo de Eduardo se desentendeu com Damião seu irmão gêmeo. A ira aflorada, as palavras agressivas, a calúnia levantada contra o próprio sangue. O álcool ingerido, a faca surgindo reluzente na mão. Seis golpes desferidos. Segurando as tripas Damião pediu a turba de curiosos que o socorresse. Socorro que chegaria tarde demais. Morreria ali na praça mesmo, dentro da ambulância, enquanto o frevo sequer parou. Outra vez era julho. Dez anos havia se passado. Cosmo agora sentava no banco dos réus. Entre o corpo de jurado Eduardo. Outra vez era julho. 

Fabio Campos 20 de julho de 2016.

*P.S. A Gravura que ilustra este Conto é uma foto da Belíssima Capela de São Francisco de Assis, localizada em Paulo Afonso - Bahia. A arquitetura mistura rusticidade e o estilo europeu, donde viveu o Santo de Assis vida simples. Construída pela C.H.E.S.F. em meados de 1965.

Os Vários Nomes do Dinheiro


Vou elencar pra você 
No verso e no abecedário 
Os nomes mais popular 
Que o dinheiro foi ganhar 
Do povo no imaginário 

Com A lhe chama ARAME 
Abre Porta e Amassado 
Tira você do vexame 
Ande c’o bicho Amarrado 

Com B ele é BUFUNFA 
Pouco só compra Banana 
Malandro chama Brinquedo 
Folgado chama "Bacana"

C é COURO DE RATO 
Cascalho,Cobre,Cobrinho 
No Jogo ele é Casado 
Na malandragem Courinho 

Com D lhe chama DIN-DIN 
Os “Dólar” ele é Da Hora! 
Em disco ele faz TIN-TIN... 
De todo jeito é Da Moda 

Com E use EM ESPÉCIE 
Dispensa até outro nome 
Tem o popular "Escudo"
Enrolado compra tudo 
Com ele se mata a fome 

Com F é FORRA BOLSO 
Nota nova é Fresquinha 
Tira qualquer um do fôsso 
Eu chamo de Figurinhas 

Com G apelido é GRANA 
Na aposta é Garantia 
Um maço de nota é Gorda 
Nota alta é Graúdinha 

Com H é meio difícil 
Me lembra de HONORÁRIOS 
É sinônimo de Herança 
Tudo dá em Numerários! 

Com I é Interessante 
Se abre porta é INGRESSO 
Se falta é Intrigante! 
Com ele se faz sucesso 

Com J é JOÃO DA CRUZ 
É Jóia pra pagar conta 
Não deixa cortar a Luz 
O bicho também apronta 
Fez Judas trair Jesus 

Com L chamam de Là
Pouquinho é está na Lona 
Quem rouba ele é Lalau 
Se é fêmea ela é Ladrona 

Com M é MOLHA-MÃO 
De prata ele é Moeda 
Trocado chamam Miúdo 
Sem nenhum é estar na Merda! 

Com N chamam de NÍCA 
Que é Níquel papel é "Nota"
Se emprestado tomou
Se lembre que tem a Volta! 

Com "O" apelido é OURO 
Que é nome original 
Só não se engane c’um brilho 
Pois aí você vai mal 

Com P menino quér PRATA 
Pepita "Pila" e "Papé"
No passado era Pataca 
Por ele até dão “o ãné” 
Com "Q" quase não há opção 
Se sabe que é Querido 
Precisa ser muito QUENTE 
Nas transações do bandido!
 
Com R ele é RAÇUDO 
Com S ele é SIFRÃO 
Com T ele vira TAXA 
Com U é da UNIÃO 
Com V ele é VALORES 
Com X ele é XEQUE-MATE 
Com Z ZELADOR do dono 
Até que alguém Arremate! 

É nos ditos populares 
Que Dinheiro é um engano 
Sem ele a casa cai
Com ele fazem mil planos 

Atrás dele o povo vai 
Até sofrer desengano 
O bicho tem chamariz 
Dinheiro é pra comprar 
Pra consumir e gastar 
Se vai assim por um triz

A bem saber da verdade
Só não traz felicidade 
É assim que o povo diz 
Não tira o que vem dum sôco 
Só serve pra passar troco 

Ô bicho desinfeliz! 
Então o que o dinheiro traz ? 
Invenção do satanás 
Algum momento feliz.


Fabio Campos 17 de Junho de 2016